Audioteca | PSICOLOGIA EM MOVIMENTO

Psicologia em Movimento: impotência afetiva


O psicólogo Sylvio Ferreira fez uma reflexão sobre pessoas identificadas com impotência afetiva

Publicado em 26/07/2017, às 01:34


Rádio Jornal

Foto: reprodução/internet

No quadro Psicologia em Movimento desta terça-feira (25) o professor Sylvio Ferreira trouxe para os ouvintes esclarecimentos a cerca do termo "impotência afetiva".

Ouça na íntegra:

Na página pessoal dele no facebook, Sylvio escreveu o seguinte texto:

"Há homens que mal iniciam um relacionamento e logo se apaixonam. Embora esse não seja um comportamento trivial, nem por isso é algo incomum. Realmente, existem homens que possuem enorme capacidade de entrega. Esses não têm medo de abrir o coração e de mergulhar de cabeça em um relacionamento afetivo.

Em geral, eles são atenciosos, carinhosos, participativos, alegres, generosos, espontâneos, autênticos, assumem os seus erros e pedem desculpas e perdão, quando a ocasião assim exige; enfim, são de bem com a vida. Além disso, não costumam fazer da relação mantida uma rinha de embate afetivo para saber quem ama mais do que quem no relacionamento ou quem tem o controle e o domínio da situação.

Por sua vez, há homens que se entregam de menos. Não importa qual a razão, eles sempre mantêm um pé atrás, avançando com extrema cautela no relacionamento, como se estivessem tateando no escuro ou pisando em ovos. Embora, há muito tempo, possam já ter se apaixonado e não saibam ou queiram revelar ou admitir.

Esses homens buscam comumente se mostrar autoconfiantes, quando são inseguros. A participação, a atenção e o carinho, que movem suas vidas mais parecem uma mascarada. Neles, a generosidade é assaltada pelo egoísmo e a mesquinharia é a tônica. Falta-lhes mais do que segurança ou confiança em si, falta-lhes autenticidade.

Para aqueles que assim se comportam, viver um relacionamento afetivo é sempre uma situação de risco. O que eles temem é amar sem ser amado. Para não incorrer nesse risco, eles dão a si uma importância maior do que têm, esperando ser amados a partir de um hipotético valor de mercado que atribuem a si mesmos. É essa importância auto atribuída que os levam a querer assumir o papel de guardião e protetor, querendo com isso mascarar a insegurança que os domina.

Segundo acreditam, eles invariavelmente tomam a si mesmos como padrão de referência e estabelecem imaginariamente um valor para si que é sempre maior do que o da sua companheira e dos concorrentes em potenciais. Na tentativa de mascarar a fragilidade e a insegurança, é comum se acharem o rei da cocada preta, mesmo que tentem disfarçar o que pensam sobre si e o valor que se dão.

O curioso é que esses homens têm medo de amar, mas amam, mesmo que de forma enviesada. Mas é difícil para eles revelar o que sentem, de modo aberto e franco, movidos que são por uma cultura do atraso, aquela que diz que homem não chora. Essa cultura traz consigo outra no seu bojo, tão daninha quanto à primeira: a de que somente à mulher cabe amar e revelar os seus sentimentos.

Contudo, ao cabo, por mais que eles se defendam, também acabam amando em demasia. E, em função da negação dos sentimentos, o preço que têm a pagar, na primeira curva ingrata da vida, é elevado. A rebordosa que os espera é grande! Quando acontece de serem pegos pela tal curva do tempo, eles gemem e sofrem calados ou às escondidas.



Por fim, há outro tipo de homem; aqueles que não conseguem amar. Não conseguem, nem tentam, nem querem, nem sequer sabem que sofrem do mal que eu chamo de impotência afetiva. O que buscam é só comida, diversão e sexo. Ou seja, o prazer fugaz de alguns encontros e nada mais. Esses homens não sabem estar só consigo mesmos.

Vivem no meio do mundo, tentando fugir da solidão, como o diabo foge da cruz. Desse modo, tentam aplacar suas ansiedades, medos e angústias, lançando-se com extrema facilidade aos braços de outra pessoa, em busca de companhia. Assim, costumam fazer do sexo o seu ponto de fuga, o seu oásis, o seu nirvana. Tudo muito rápido, sem nenhum compromisso.

Obviamente que não há nenhum problema em tais encontros, quando as pessoas envolvidas assim se propõem e se permitem jogar aberto. O problema surge quando aqueles que assim agem avançam no mundo das conquistas, deixando para trás um sem-número de corações partidos. Ele até que deseja ser amado, mas não tem nenhum afeto a oferecer em contrapartida.

A mascarada logo cede lugar aos gestos estereotipados, vazios e mecânicos. Facilmente, ele toma a outra pessoa por objeto, e a trata como tal, na tentativa de anular a sua, dela, condição de sujeito. Em realidade, ele não sabe proceder de outro modo. O autoritarismo e a arrogância não o permitem. E, segundo crê, ele nunca deixa de ter razão nas demandas que estabelece.

Em situações especiais, quando acontece de admitirem alguma falta, assim o fazem por concessão, não por reconhecimento de algum erro que tenham cometido. O que faz com que as suas performances revelem-se pura fantasia, senão puro fingimento. Esses homens se construíram em solo árido, afetivamente falando. Tão árido que nem parece que o sopro da vida afetiva chegou até eles, em algum momento.

Em geral, eles são alegres, divertidos, fazem amizades com facilidade, possuem espírito de liderança, o sorriso fácil e cativante, logo chamam a atenção aonde chegam, são socialmente amáveis, sabem viver e gozar a vida, como se diz. Mas realizam uma aposta única na vida, em termos de potência. Eles voltam à atenção e a preocupação, exclusivamente, para a potência orgástica. Nesse sentido, em geral, são viris.

Contudo, noutros aspectos da vida deixam a desejar. A potência orgástica adquire tamanha importância e valor em suas vidas que eles acreditam que a alavanca que carregam entre as pernas, em sendo capaz de mover o mundo, mesmo que imaginariamente, é o que basta. Quando possuídos por essa certeza imaginária dão pulos e gritam vivas, senão eureca.

Não obstante, a única coisa que não sabem fazer é amar, por serem acometidos de elevado grau de narcisismo, possuírem a personalidade acentuadamente egóica e por sofrerem de impotência afetiva, mesmo que nunca tenham se dado conta do mal que lhes acomete.

Entrementes, tudo isso não passaria de uma grande pantomima, como exercício impróprio da masculinidade, se o rastro de dor e frustração que deixam pelo caminho não fosse do tamanho do vazio dos seus egos."


Audioteca

Psicologia em Movimento: impotência afetiva



Publicado em 26/07/2017, às 01:34


Rádio Jornal

[IMAGEM]

No quadro Psicologia em Movimento desta terça-feira (25) o professor Sylvio Ferreira trouxe para os ouvintes esclarecimentos a cerca do termo "impotência afetiva".

Ouça na íntegra:

[uolmais_audio 16277807]

Na página pessoal dele no facebook, Sylvio escreveu o seguinte texto:

"Há homens que mal iniciam um relacionamento e logo se apaixonam. Embora esse não seja um comportamento trivial, nem por isso é algo incomum. Realmente, existem homens que possuem enorme capacidade de entrega. Esses não têm medo de abrir o coração e de mergulhar de cabeça em um relacionamento afetivo.

Em geral, eles são atenciosos, carinhosos, participativos, alegres, generosos, espontâneos, autênticos, assumem os seus erros e pedem desculpas e perdão, quando a ocasião assim exige; enfim, são de bem com a vida. Além disso, não costumam fazer da relação mantida uma rinha de embate afetivo para saber quem ama mais do que quem no relacionamento ou quem tem o controle e o domínio da situação.

Por sua vez, há homens que se entregam de menos. Não importa qual a razão, eles sempre mantêm um pé atrás, avançando com extrema cautela no relacionamento, como se estivessem tateando no escuro ou pisando em ovos. Embora, há muito tempo, possam já ter se apaixonado e não saibam ou queiram revelar ou admitir.

Esses homens buscam comumente se mostrar autoconfiantes, quando são inseguros. A participação, a atenção e o carinho, que movem suas vidas mais parecem uma mascarada. Neles, a generosidade é assaltada pelo egoísmo e a mesquinharia é a tônica. Falta-lhes mais do que segurança ou confiança em si, falta-lhes autenticidade.

Para aqueles que assim se comportam, viver um relacionamento afetivo é sempre uma situação de risco. O que eles temem é amar sem ser amado. Para não incorrer nesse risco, eles dão a si uma importância maior do que têm, esperando ser amados a partir de um hipotético valor de mercado que atribuem a si mesmos. É essa importância auto atribuída que os levam a querer assumir o papel de guardião e protetor, querendo com isso mascarar a insegurança que os domina.

Segundo acreditam, eles invariavelmente tomam a si mesmos como padrão de referência e estabelecem imaginariamente um valor para si que é sempre maior do que o da sua companheira e dos concorrentes em potenciais. Na tentativa de mascarar a fragilidade e a insegurança, é comum se acharem o rei da cocada preta, mesmo que tentem disfarçar o que pensam sobre si e o valor que se dão.

O curioso é que esses homens têm medo de amar, mas amam, mesmo que de forma enviesada. Mas é difícil para eles revelar o que sentem, de modo aberto e franco, movidos que são por uma cultura do atraso, aquela que diz que homem não chora. Essa cultura traz consigo outra no seu bojo, tão daninha quanto à primeira: a de que somente à mulher cabe amar e revelar os seus sentimentos.

Contudo, ao cabo, por mais que eles se defendam, também acabam amando em demasia. E, em função da negação dos sentimentos, o preço que têm a pagar, na primeira curva ingrata da vida, é elevado. A rebordosa que os espera é grande! Quando acontece de serem pegos pela tal curva do tempo, eles gemem e sofrem calados ou às escondidas.

Por fim, há outro tipo de homem; aqueles que não conseguem amar. Não conseguem, nem tentam, nem querem, nem sequer sabem que sofrem do mal que eu chamo de impotência afetiva. O que buscam é só comida, diversão e sexo. Ou seja, o prazer fugaz de alguns encontros e nada mais. Esses homens não sabem estar só consigo mesmos.

Vivem no meio do mundo, tentando fugir da solidão, como o diabo foge da cruz. Desse modo, tentam aplacar suas ansiedades, medos e angústias, lançando-se com extrema facilidade aos braços de outra pessoa, em busca de companhia. Assim, costumam fazer do sexo o seu ponto de fuga, o seu oásis, o seu nirvana. Tudo muito rápido, sem nenhum compromisso.

Obviamente que não há nenhum problema em tais encontros, quando as pessoas envolvidas assim se propõem e se permitem jogar aberto. O problema surge quando aqueles que assim agem avançam no mundo das conquistas, deixando para trás um sem-número de corações partidos. Ele até que deseja ser amado, mas não tem nenhum afeto a oferecer em contrapartida.

A mascarada logo cede lugar aos gestos estereotipados, vazios e mecânicos. Facilmente, ele toma a outra pessoa por objeto, e a trata como tal, na tentativa de anular a sua, dela, condição de sujeito. Em realidade, ele não sabe proceder de outro modo. O autoritarismo e a arrogância não o permitem. E, segundo crê, ele nunca deixa de ter razão nas demandas que estabelece.

Em situações especiais, quando acontece de admitirem alguma falta, assim o fazem por concessão, não por reconhecimento de algum erro que tenham cometido. O que faz com que as suas performances revelem-se pura fantasia, senão puro fingimento. Esses homens se construíram em solo árido, afetivamente falando. Tão árido que nem parece que o sopro da vida afetiva chegou até eles, em algum momento.

Em geral, eles são alegres, divertidos, fazem amizades com facilidade, possuem espírito de liderança, o sorriso fácil e cativante, logo chamam a atenção aonde chegam, são socialmente amáveis, sabem viver e gozar a vida, como se diz. Mas realizam uma aposta única na vida, em termos de potência. Eles voltam à atenção e a preocupação, exclusivamente, para a potência orgástica. Nesse sentido, em geral, são viris.

Contudo, noutros aspectos da vida deixam a desejar. A potência orgástica adquire tamanha importância e valor em suas vidas que eles acreditam que a alavanca que carregam entre as pernas, em sendo capaz de mover o mundo, mesmo que imaginariamente, é o que basta. Quando possuídos por essa certeza imaginária dão pulos e gritam vivas, senão eureca.

Não obstante, a única coisa que não sabem fazer é amar, por serem acometidos de elevado grau de narcisismo, possuírem a personalidade acentuadamente egóica e por sofrerem de impotência afetiva, mesmo que nunca tenham se dado conta do mal que lhes acomete.

Entrementes, tudo isso não passaria de uma grande pantomima, como exercício impróprio da masculinidade, se o rastro de dor e frustração que deixam pelo caminho não fosse do tamanho do vazio dos seus egos."