Extenso período de confinamento requer maior atenção ao psicológico dos jogadores

Futebol brasileiro já se estende por mais de dois meses sem atividade

FUTEBOL BRASILEIRO
Extenso período de confinamento requer maior atenção ao psicológico dos jogadores

Especialistas avaliam atual cenário do futebol brasileiro. - Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem

Filipe Farias | Pedro Alves

O confinamento, sem dúvida, é um antídoto necessário e eficaz para combater a pandemia do novo coronavírus. Principalmente aqui no Brasil, um dos países com maior número de infectados pela covid-19. Entretanto, o isolamento social tem lá os seus efeitos colaterais. E, nos atletas de alto rendimento, esses efeitos muitas vezes acabam sendo potencializados no psicológico. Afinal de contas, para atingir tais objetivos esportivos, é necessário muita disciplina, rotina e foco nas competições que estão por vir. Sem ter tudo isso para correr atrás, muitos jogadores estão se vendo perdidos ao longo do dia. Por mais que se cumpra o protocolo de exercícios físicos passado pelos clubes, o dia parece ter ficado mais longo.

“Sem estar no dia a dia com meus companheiros é complicado. Ficar em casa, sem fazer nada, sem ninguém pra mandar você treinar, sem compromisso a cumprir. Não estou aguentando mais ficar em casa. Complicado você que tem um dia a dia, horário marcado, sem poder atrasar, compromissos, cobranças… Estou com  muita saudade disso”, declarou o meia Jeremias. “É muito complicado esse momento. Eu não consigo ficar parado. Tenho de estar sempre jogando bola, correndo”, revelou o meia-atacante Felipe Simplício. Os jogadores do Santa Cruz não tiraram férias com a paralisação do futebol e estão há mais de 60 dias confinados.

Para a médica psiquiatra Lorena Interaminense, essas reações psicológicas sentidas pelos jogadores do Santa Cruz são comuns em quem sofreu uma mudança de rotina repentina. “Tempos de pandemia podem gerar uma série de estressores, como o medo de adoecer, isolamento social, preocupações econômicas e mudanças de rotina. Por isso, além dos cuidados com a saúde física, importante cuidar da saúde mental”, declarou a doutora. “Para atletas e pessoas mais ativas, existem intensas mudanças de rotina – como a suspensão das competições e parada abrupta dos treinos. Seguir realizando atividades físicas, mesmo em casa, e aproveitar o tempo para aprender novos repertórios, como um instrumento musical, podem ser uma excelente estratégia de enfrentamento para este período”, concluiu.

Com experiência no meio do futebol passagem pelo Náutico e pelo Sport, a psicóloga Aritana Azevedo afirma que os jogadores estão aprendendo a assumir novos papéis em suas rotinas em confinamento. “Sem o futebol, muitos jogadores estão se vendo numa condição que é quase uma novidade. Tendo de exercer papéis que ainda não tinham se dado conta, que é como pai e marido, muitas vezes. Eles estão sabendo agora como é acompanhar o filho acordando, de repente no meio da noite, saber como é o estudo do filho, a preferência de brincadeira. Ou seja, os jogadores estão aprendendo a ter essa convivência com a família”, destacou a psicóloga. “É importante estabelecer uma rotina, porque se não o pensamento se volta para coisas que não temos o controle… Quando vai acabar a pandemia, surgimento da vacina, volta do futebol. Tudo isso são incertezas. A única coisa eu podemos controlar são os pensamentos. Então é importante ter uma rotina e buscar gerenciar as emoções, saber administras as emoções e preocupações. E, pra isso, a rotina é imprescindível”, apontou.

Apesar de não ter um (a) profissional da área de psicologia, a comissão técnica tricolor vem procurando conversar com os jogadores semanalmente, de forma online, para tentar tranquilizá-los e mantê-los motivados, mesmo em isolamento. “A gente conversa também no aspecto motivacional. Tentar motivá-los, pois sabemos que é difícil essa situação que estamos atravessando. Não estamos só preocupados com a parte física, mas também com essa questão emocional dos jogadores, pois um dos pilares de um atleta de alto rendimento é o aspecto motivacional e precisamos estar motivados para quando o futebol retomar estarmos bem preparados”, afirmou Lucas Isotton, auxiliar técnico de Itamar Schulle.

Volta aos treinos dos clubes

Para o preparador físico do Santa Cruz, Carlos Gamarra, nesse momento, voltar aos treinamentos no clube seria potencializar a ansiedade dos jogadores. “Os atletas estão abalados fisicamente. Vai chegar no clube com aquela incerteza, insegurança de como vai ser. E se a gente levar eles para treinar… Vão ser mais incertezas, mais insegurança. Vai treinar para quê? Se não tem data marcada para competição. Então, o mais prudente é somente voltar a treinar quando tiver jogos marcados porque o prejuízo emocional vai ser menor”, opinou.

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