MEMÓRIA

Sete anos sem Mané Queiroz: Escrete de Ouro relembra histórias do inesquecível plantão esportivo


Radialista faleceu aos 66 anos após não resistir aos traumatismos ocasionados por um atropelamento de moto, em Caruaru

Filipe Farias
Filipe Farias
Publicado em 05/01/2021 às 7:41
Foto: acervo Rádio Jornal
FOTO: Foto: acervo Rádio Jornal
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Há exatos sete anos, a crônica esportiva perdia uma das vozes mais carismáticas do rádio pernambucano. No dia 5 de janeiro de 2014, Manuel Marciano de Queiroz, o nosso eterno Mané Queiroz, faleceu aos 66 anos após não resistir aos traumatismos ocasionados por um atropelamento de moto, no município de Caruaru - sua cidade natal. Apesar do vazio deixado nos microfones, a lembrança da figura de Mané é só alegria. Mais do que um plantão esportivo, que ao longo dos seus 47 anos de carreira conquistou os torcedores pernambucanos, Mané era um comunicador nato. Com o seu carisma e, principalmente, sua inteligência (era formado em economia e psicologia), ele cativava os ouvintes com extrema facilidade. E nem precisava ser um aficionado por futebol. A saudade de ouvir a voz rouca e marcante de Mané chamando o "Tem gol" durante a jornada esportiva da Rádio Jornal é enorme. Por isso, quem ouviu, não se esquece.

Mané Queiroz atuava como plantão esportivo do Escrete de Ouro, da Rádio Jornal
Mané Queiroz atuava como plantão esportivo do Escrete de Ouro, da Rádio Jornal
Foto: acervo pessoal

"Mané era uma pessoa muito extrovertida e era o meu irmão mais velho. O irmão mais velho geralmente é o líder, a pessoa que a gente segue, que a gente admira. Tínhamos dois anos de diferença... E o mais novo admira, segue o que o irmão mais velho. Então, a convivência era muito boa. Sinto falta disso. Perdi ele muito cedo, eu acho", lembra com saudade o narrador do Escrete de Ouro Roberto Queiroz. "Ele na verdade era gerente financeiro de uma outra rádio e cuidava do faturamento e do financeiro como um todo. E, nessa rádio, ele começou a participar de alguns programas gravados pelos padres, que eram os donos da rádio. Como não tinha um locutor, eles (padres) começaram a colocar Mané para aprender e a apresentar os programas. Sendo que teve um momento que nós, da equipe esportiva, perdemos o plantão esportivo e não tínhamos quem colocar. Então me deu um estalo na cabeça de colocar Mané como plantão nessa emergência e ele foi muito bem. Tanto que depois saímos para outras rádios e ele foi também, já como plantão, e se soltou", contou Roberto.

Contemporâneo de Mané Queiroz, o comentarista Ralph de Carvalho além de mencionar a marca registrada do plantão esportivo, de ser alto astral e brincalhão, também fez questão de ressaltar a inteligência do amigo. "Mané era um apaixonado por rádio esportivo. Mesmo trabalhando no setor administrativo, ele queria participar como plantão e no futebol o tempo todo. Lembro que Mané fez concurso para o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), foi aprovado e virou funcionário do Incra. Com isso, ele deixou a parte administrativa da rádio e ficou só na parte esportiva, nos plantões. Depois ele ainda se formou em psicologia, porque ele gostava de estudar. Só não entrou nessas atividades porque o que ele queria mesmo era o rádio esportivo. E ele ficava feliz no plantão. Não queria ser repórter, não queria ser comentarista, ele queria ser aquilo ali. Foi feliz o tempo todo sendo o plantão que ele era", comentou Ralph.

OUÇA A VINHETA DE MANÉ QUEIROZ

Porém, na 37ª rodada da Série B de 2013, Mané acabou surpreendendo a todos durante a transmissão ao atuar como um narrador. "O Sport estava brigando naquele ano para subir para a Série A e enfrentou o Boa Esporte. No outro jogo, Icasa e Chapecoense se enfrentaram. Se a Chapecoense vencesse, favoreceria diretamente o Sport - o Icasa brigava pelo acesso. Eu estava narrando o jogo principal, mas orientei ele antes da partida e disse: 'Mané, se tiver gol da Chapecoense a torcida vai querer saber na hora. O Rádio é quem vai entrar primeiro rasgando. Fica ligado'. Lembro que usei justamente esse termo: entra rasgando se tiver gol da Chapecoense. Mas eu fui surpreendido, porque pensei que ele ia entrar e dizer: 'gol da Chapecoense, Aroldo', e eu passaria para ele como normalmente fazemos com o plantão. Sendo que ele estava tão no clima da jornada que entrou rasgando narrando o gol, como se fosse um narrador mesmo. Eu fiquei surpreso com a atitude dele. Mas essa foi uma das grandes sacadas de Mané. E isso ficou marcado... O dia que ele estava no plantão, girando o placar e gritou o gol da Chapecoense. Ele entrou no clima da jornada, fez uma coisa diferente, foi legal e no final todo mundo gostou. Bem no estilo de ser de Mané Queiroz", declarou Aroldo Costa, narrador do Escrete de Ouro.

OUÇA OS GOLS NARRADOS POR MANÉ QUEIROZ

MARCA REGISTRADA

Quem não se lembra da brincadeira de Mané Queiroz - que acabou virando sua marca registrada - ao final de cada classificação dada no ar? "Mané tinha essa lado gozador. Logo na primeira rodada, ele já chamava a atenção e quando dava a classificação dizia: 'se o campeonato terminasse hoje, clube tal estaria rebaixado ou seria campeão'. Isso logo nas primeiras rodadas. Essas coisas chamavam atenção e ele repetia justamente com esse propósito mesmo", relembrou o comentarista Maciel Júnior.

BRINCADEIRA COM O AMIGO

Outro que teve a satisfação de trabalhar com Mané Queiroz foi o apresentador Ednaldo Santos, que relembrou o dia que "trolou" o amigo no ar. "Eu estava apresentando o debate do Domingo Esportivo e, nessa época, estávamos em prefixos diferentes. Lembro que estava fazendo um comentário crítico e ácido sobre a atuação da arbitragem do Campeonato Pernambucano daquele ano. Foi quando um dos debatedores, não me lembro quem, informou que a FPF tinha dado um passo importante para melhorar a qualidade dos árbitros e que acabaram de contratar um psicólogo para melhorar o equilíbrio emocional dos árbitros. E esse psicólogo era justamente o nosso querido Mané Queiroz. Para brincar com ele, eu disse no ar: 'como estão colocando Mané como psicólogo da arbitragem, aquilo vai se transformar num verdadeiro hospício'. Ele estava ouvindo o programa e me ligou imediatamente dizendo: 'olhe, senhor Ednaldo, não se esqueça de dizer também que o primeiro que eu vou levar para esse hospício é você e o seu programa'. Logo depois ele já emendou a sua característica e exclusiva risada", rememorou Ednaldo.

"Na área de plantão esportivo, ele foi um dos melhores da história, na minha opinião. Como pessoa, ele era uma figura humana que era inconfundível. Sempre dotado de um elevado espírito de humor. Descontração o tempo todo. Jamais o flagrei em lamentações. A alegria fazia parte do dia a dia de Mané. Uma grande figura que faz uma falta danada e não conseguimos esquecer", disse Ednaldo Santos, bastante saudoso do amigo.


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