REPORTAGEM ESPECIAL

Em Pernambuco, tendinite, depressão e síndrome do pânico cercam a rotina dos terceirizados

No Ministério do Trabalho, os trabalhadores indiretos representam 70% das queixas por desrespeito

Da Rádio Jornal
Da Rádio Jornal
Publicado em 30/04/2015 às 9:25
Leitura:
Foto: Luiza Falcão/Rádio Jornal


O Brasil tem uma das maiores legiões de trabalhadores do mundo. Dados do IBGE apontam que 92,3 milhões de pessoas estão trabalhando no País. Destes, cerca de 12 milhões são trabalhadores terceirizados.

A terceirização é um processo de contratação em que uma empresa deixa de executar uma ou mais atividades e transfere a responsabilidade do serviço para outra empresa. Em Pernambuco, as principais áreas em que se utiliza mão de obra terceirizada são nas telecomunicações e nas de limpeza e conservação.

O Grupo Contax, fundado há 15 anos, é líder em teleatendimento no país e possui mais de 107 mil funcionários. Deste total, 14 mil pessoas trabalham no Recife. A empresa rende para a cidade o segundo maior valor em Imposto Sobre Serviços (ISS).

Ela também é líder em reclamações e denúncias recebidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego, chegando a ser interditada no início de 2015. De janeiro a março de 2013, quase nove mil atestados foram apresentados por funcionários. Os afastamentos são causados na maior parte das vezes por tendinites, depressão, síndrome do pânico e infecção urinária, doenças que refletem a dinâmica de trabalho adotada na unidade.

Natália França trabalhou por 3,5 anos no grupo antes de ser demitida por não fazer mais o perfil da empresa. Ela critica o tratamento dado aos funcionários, que são fiscalizados até quando vão ao banheiro.

O radialista Renato Cabral trabalhou na Contax pouco por um ano e três meses e não quer voltar ao setor de teleatendimento. “A meta era atender pelo menos 100 ligações por dia. A gente atendia uma e já chegava outra e outra e mais outra”, diz.

Para o auditor Fiscal do Ministério do Trabalho e vice-presidente Nacional da Categoria, Carlos Silva, a dinâmica das empresas de telecomunicações acaba mecanizando as relações de trabalho. “Essas atividades de telecomunicações e do setor bancários que estão se avolumando com aquela ideia de ganho de escala estão transformando as pessoas em mercadoria. Essas pessoas são mais um número dentro da empresa. Elas não são mais conhecidas pelo nome, não são mais tratadas como ser humano”, diz.

Foto: Luiza Falcão/Rádio Jornal

Defesa

As empresas terceirizadas se defendem. O assessor Jurídico do Sindicato das Empresas de Asseio e Conservação, Manoel Correia, garante que os serviços estão acordo com as normas da CLT. “Somos empresas certificadas, com qualidade na prestação de serviço e regularmente fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho. A jornada de trabalho está prevista na CLT. O trabalhador, terceirizado ou não, continuará observando as mesmas leis”, completa.

Para quem fiscaliza, a realidade é outra. De acordo com o auditor Fiscal, Carlos Silva, o funcionário terceirizado é a mão de obra mais vulnerável. “É um trabalhador que sempre trabalha, em comparação aos funcionários diretos, numa sobrejornada e tem um envolvimento com o trabalha análogo com a escravidão. Nós entramos nas empresas todos os dias. Mais de 70% das queixas de trabalhadores desrespeitados são terceirizados”, aponta.

Nesta sexta-feira (1º), na série “O trabalhador na berlinda: os dilemas da terceirização em Pernambuco” você acompanha situação de quem trabalha nas empresas de asseio e conservação e a polêmica em torno do projeto de lei que regulamenta a terceirização no País. A série tem produção e reportagem de Ismaela Silva, Luiza Falcão, Natália Hermosa e Rafael Souza; coordenação de Carlos Moraes e trabalhos técnicos de Evandro Chaves.

Mais Lidas