Entrevista

É preciso sair para ser valorizado, desabafa Lia de Itamaracá

Em entrevista exclusiva ao “Frequência 2.0”, cirandeira mais famosa do mundo fala sobre dificuldade de viver da música e conta o sonho que ainda falta

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Publicado em 13/11/2017 às 10:35
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“Muita gente acha que sou uma lenda, que não existo e que já passei. E eu estou no meio deles bem ‘tchan’”, sorri Lia de Itamaracá. Patrimônio vivo de Pernambuco, a cirandeira mais famosa do mundo foi a entrevistada do “Frequência 2.0” em uma edição histórica veiculada na noite desta sexta-feira (10).

Programa especial

Maria Madalena Correia do Nascimento virou Lia desde a infância e conta que sempre sonhou em cantar e que logo virou Lia da Ciranda, a futura Lia de Itamaracá. Ela relembra como foi encontrada pela cantora Teca Calazans, ainda nos anos 60, enquanto cantava no quintal de casa: “Ela me ouviu ao lado da casa dela, ela tinha gravador e eu só tinha a inspiração”, relembra. “Lia essa música (que Lia cantou) é um amor e eu vou por seu nome em sua homenagem”, disse a artista na época, que nunca mais falou sobre o assunto: “Ela pensava que ia fazer questão, que ia brigar. Não, ela foi a única pessoa que viu que eu tinha talento. Eu valorizo ela”, destaca Lia.

‘Embaixadora’ de Itamaracá

Maior celebridade da Ilha de Itamaracá, na Região Metropolitana do Recife, Lia diz que sempre viveu na ilha e que não tem raiva, nem tristeza, só amor pelo lugar onde vive. “Se me dessem o título de embaixadora (de Itamaracá) eu receberia muito bem”, crava.

Ela afirma que já foi convidada para ser vereadora e até prefeita do município, mas que nunca aceitou porque não tem “cabeça para política”.

Dos tempos difíceis ao reconhecimento mundial

Lia descobriu no rádio que uma música sobre ela tinha sido gravada. Em 1977 chegou a gravar um CD de ciranda (Rainha da Ciranda), por qual não ganhou nenhum direito autoral. Após isso, um longo tempo longe da música onde foi cozinheira de um bar e depois virou merendeira em uma escola estadual durante 28 anos.

Depois, Lia de Itamaracá foi escalada para a Casa da Cultura, no Recife, onde encontrou um produtor, chamado Beto, que nas palavras dela a “tirou do fundo do poço”. “Ele me levou para o exterior”, afirma. “Uma artista sem ter experiência de nada e quem tem o poder não ajudar foi o sofrimento que tive na Ilha. Mas hoje é só alegria”, completa.

A cirandeira declara ainda que não consegue viver só da música que faz: “Você faz ciranda e demora muito a receber. Eu vivo do meu emprego, sou aposentada, e do Patrimônio Vivo. A ciranda me ajuda muito, mas não sozinha. Eu tenho que lutar e gritar que sou Lia”, diz.

Lia reconhece que a cultura é desvalorizada no Brasil e por isso acredita que às vezes é preciso deixar o país para ser valorizado: “Lá fora o reconhecimento é 10”, afirma.

Preconceito, ídolos e cultura

Amante de música romântica, Lia de Itamaracá gosta de ouvir Agnaldo Timóteo, Reginaldo Rossi, Nelson Gonçalves e Bartô Galeno. Tem muitas saudades dos amigos Naná Vasconcelos (morto em 2016) e da coquista Selma do Coco (morta em 2015). Ela lamenta a falta de incentivo e atrações no Pátio de São Pedro, centro do Recife.

Católica, Lia diz que no Camdomblé é filha de Iemanjá e que não tem preconceito com nenhum religião. Sobre o racismo, chaga aberta do Brasil, ela diz que existe há muito tempo e que o negócio e “não dar ouvidos”.

Experiências teatrais

Em edição valorizando a cultura popular, o “Frequência 2.0” também entrevistou direção e parte do elenco do espetáculo “Ganga meu Ganga, o Rei”, que está fazendo encenações em terreiros de Candomblé da Região Metropolitana do Recife. “Sentimos a necessidade de levar esse espetáculo par aos terreiros e desmistificar. A questão fechada que as pessoas fazem do terreiro precisa ser repensada”, afirma Albanita Almeida, diretora e atriz do espetáculo. Além dela, participou da conversa a atriz e figurinista Kattianny Torres.

Já a atriz Agrinez Melo, do espaço teatral O Poste Soluções Luminosas, participou da primeira hora do programa e destacou o projeto Luz Negra: “esse projeto vem pra dizer que a gente tem um movimento forte de artistas negros e que somos capazes de nos organizar e ter uma excelência na nossa arte”, declarou.

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Colunas sobre sexo e astrologia

Na coluna “Sexo e relacionamento”, a sexóloga Silvana Melo explicou o que é a assexualidade, característica que marca as pessoas que não sentem prazer sexual. Já no quadro “Astros e Estrelas”, a astróloga Angela Brainer explicou os elementos de casa signo. Quem quiser mandar sugestão ou tirar dúvidas para esses quadros podem entrar em contato pelo freqüência@radiojornal.com.br.

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