Reportagem Especial

Mãe de Veronaldo faz exercícios para conseguir pegar o filho nos braços

Veronaldo Gomes, torcedor do Sport, ficou tetraplégico em 2007, quando foi atingido por uma pedrada, lançada da arquibancada do Arruda num dia de jogo

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Publicado em 19/12/2017 às 16:02
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Sete horas da manhã. Dona Hozineide já está de pé para pegar a sua “maromba”, como gosta de chamar os pesos que com orgulho ela mesma fez. Uma barra de ferro com um balde cheio de concreto em cada ponta. Levantada por quarenta minutos todos os dias no terraço de casa. Aos 53 anos, ela se exercita com o equipamento de cerca de 40 quilos com uma facilidade impressionante. Não por vaidade. E sim por necessidade.

“Dou banho no meu filho todos os dias e muitas vezes ficava com vergonha de ficar incomodando os vizinhos pra pedir ajuda para levantar ele. Então eu resolvi me preparar pra aguentar sozinha meu bebê que pesa uns 50 quilos. Daí fiz minha maromba e hoje em dia aguento colocar meu filho na cadeira, levar pro banheiro e voltar. Por meu filho, eu aguentava o peso que fosse preciso”, disse a dona de casa apontando com orgulho para o muque do braço.

Uma mãe que é um verdadeiro exemplo, mesmo sem ter tido um exemplo em casa. Hozineide foi abandonada pela mãe quando tinha apenas dois anos. Ela e os dois irmãos tiveram que ser criados pelo pai. O segundo contato com quem deveria fazer o papel materno também foi traumático. A menina foi bastante maltratada pela madrasta, que não dava comida e ainda a expulsava de casa quando o pai ia trabalhar. Apesar das decepções, Hozineide decidiu começar cedo no ofício de mãe. Com 18 anos, arranjou um namorado e fugiu de casa. “Quando eu tive filhos, eu lembrei que sempre gostei da letra V. Daí coloquei o nome da minha primeira filha Verônica, o do meio Veronildo e o mais novo Veronaldo”, explicou.

Confira a reportagem veiculada na Rádio Jornal:

As experiências negativas com as figuras maternas agora vieramn do companheiro, que era alcoólatra. “Ele chegava em casa quase todo dia bêbado. Meus filhos corriam pra se esconder debaixo da cama e se mijavam de medo deitados lá. Ele era muito ignorante. Uma vez ele chegou tão alterado que derrubou a mãe, bateu no pai e no irmão, só parou quando chegou a polícia”, lembrou.

No dia seguinte, o instinto materno e de sobrevivência falou mais alto e ela decidiu fugir de casa. Pegou uma sacola de compras, juntou os três filhos (Veronaldo tinha apenas 4 anos) e foi embora para a casa de uma antiga amiga dos tempos de colégio. Foi aí que começou a batalha para sustentar os três filhos sozinha, assim como o pai fez com ela. “Pra não ver meus filhos passarem fome como eu comecei a trabalhar. Arranjei três empregos de uma vez. Trabalhava de manhã de babá, à tarde de cozinheira e a noite de garçonete. Era quase 17 horas no batente, com muito orgulho”, contou.

E ainda assim, com uma rotina tão pesada, não deixava a leveza com os filhos. Todo domingo fazia questão de proporcionar lazer para eles. “Eu só tinha o domingo para meus filhos, daí eu pedia para eles escolherem o que queriam: praia, parque ou restaurante. Aí, mesmo cansada, com sono, ia levar meus filhotes. Quando íamos para a praia eu levava uma toalha para descansar e dormir um pouco na areia enquanto eles ficavam se divertindo”, contou Hozineide.

Além da dor do ocorrido com Veronaldo, ela teve que aguentar a morte do filho Veronildo em uma acidente de trânsito. Em vez de fraquejar, ficou ainda mais forte para cuidar do caçula acamado. “Pra ele aprendi a me dividir em várias: hoje, além de mãe, sou médica, enfermeira, fisioterapeuta, fonoaudióloga. Sou tudo para ele!”, disse. Tudo é ser mãe, ser mãe é tudo. Hozineide sabe bem disso e aprendeu com ele a ter mais um motivo para se apegar à letra V: “Eu já gostava antes, tanto que batizei meus filhos com ela. Mas hoje gosto ainda mais porque Veronaldo me ensinou que o V é de vitória!”, afirmou, com um sorriso largo.

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