ENTREVISTA

Evangélicas criam frente para lutar pela legalização do aborto

Grupo é formado por mulheres evangélicas de igrejas e linhas teológicas diferentes, que não encontram apoio nem nas igrejas, nem em grupos feministas

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Publicado em 21/12/2017 às 11:52
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Mulheres evangélicas e a favor da legalização do direito ao aborto. Sem encontrar respaldo às suas ideias nos coletivos feministas nem nas igrejas, o grupo formado por 40 mulheres resolveu se organizar e fundar a Frente Evangélica pela Legalização do Aborto.

O coletivo se organizou inicialmente no Rio de Janeiro, mas já conta com algumas articulações em São Paulo, Minas Gerais e na Bahia. Para a coordenadora da Frente, Camila Mantovani, o objetivo principal da organização agora é lutar pelos direitos das mulheres e mostrar que não existe contradição entre fé e posicionamento político. “A nossa ideia é de nacionalização da Frente e quem sabe até de expandir pros outros países latino-americanos que também sofrem com a criminalização”, diz.

Na internet, a página do grupo, fundada em 12 de dezembro, reúne pouco mais de 3.400 curtidas na metade deste mês de dezembro. De acordo com Camila, por trás das postagens que pedem que o aborto saia da pauta de polícia e entre nas discussões sobre saúde pública, está um grupo de evangélicas que defende o feminismo ativista como forma de reduzir o número de cristãos que tratam a interrupção da gravidez como crime e pecado. “Nem todos os evangélicos são fundamentalistas”, diz.

Confira a entrevista na íntegra com Camila Mantovani, coordenadora da Frente Evangélica pela Legalização do Aborto:

As Igrejas e a Frente

Rádio Jornal: A Frente Evangélica pela Legalização do Aborto e é um grupo de evangélicas de maneira independente ou de igrejas específicas?

Frente Evangélica: É um grupo suprapartidário. Nós temos meninas organizadas e militantes de partido, mas a maioria é independente. Não é uma iniciativa de nenhuma das organizações políticas das quais algumas de nós faz parte. Somos evangélicas de várias igrejas, de diferentes linhas teológicas inclusive.

Rádio Jornal: Qual a intenção principal do grupo? Existe uma proposta de organização de eventos, debates?

Frente Evangélica: Nosso principal propósito é promover reflexão sobre o assunto, é travar concretamente uma disputa de consciência pra dentro e pra fora das igrejas evangélicas sobre o tema.

Com uma bancada parlamentar evangélica que interfere tanto nos nossos direitos enquanto mulheres, é necessário que as pessoas saibam que a igreja também é um espaço de disputa política e que nem todos os evangélicos são fundamentalistas. A ideia é rodar esse Brasil consolidando a Frente, promovendo debates, criando canal de diálogo.

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Rádio Jornal: No Brasil, existe alguma organização similar?

Frente Evangélica: De evangélicas eu não tenho conhecimento, mas temos muita referência nas Católicas Pelo Direito de Decidir. A nossa página é nova. As CDD estão aí desde os anos 1990.

Os evangélicos e o conservadorismo

Rádio Jornal: Como vocês enxergam o esteriótipo do evangélico brasileiro, que, em geral, é visto como conservador?

Frente Evangélica: Esse estereótipo se justifica pela parcela evangélica que está na mídia. É quem está na mídia é essa galera conservadora. Mas saiu uma pesquisa no ano passado liderada pela UNESP, se eu não me engano, que aponta que mais de 77% dos evangélicos não se sentem representados pela bancada evangélica, por exemplo.

Apesar desse campo conservador ainda ser maioria, o campo progressista não é pequeno e tem crescido cada vez mais, só que nós não temos a máquina pública pra nos dar estrutura, não temos a mídia pra nos dar visibilidade. Então se consolida no senso comum, a ideia de que ser evangélico é ser conservador.

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Rádio Jornal: Qual é a reação das outras mulheres que lutam pela legalização do aborto quando vocês dizem que são evangélicas?

Frente Evangélica: Em geral é de espanto, mas de felicidade, porque elas sabem que o campo religioso é o maior barreira no avanço da pauta hoje no Brasil.

Rádio Jornal: Existe uma congregação menos rigorosa com o direito ao aborto? E quais as mais conservadoras?

Frente Evangélica: Existem muitas igrejas que tem uma visão mais progressista. Em geral, as igrejas históricas, a igreja Luterana é exemplo disso, e algumas batistas. As mais conservadoras tendem a ser as neopentecostais como a Batista da Lagoinha, Bola de Neve (que apesar de ter uma roupagem super moderna, é bem fundamentalista), a Universal, Mundial, e tem também algumas das igrejas ligadas por exemplo à Convenção Batista.

A relação com os políticos

Rádio Jornal: Pastores como Silas Malafaia ajudam a propagar rótulos na religião?

Frente Evangélica: Pastores como Silas Malafaia são um escárnio ao cristianismo! O que ele prega está longe de ser o evangelho. Aquilo é discurso de ódio do início ao final, soberba e mau caratismo. É um cara que enriquece às custas da manipulação da fé, é um coronel ditador que acha que detém a verdade sobre Deus e a bíblia. Pessoas como ele contribuem para que esse esteriótipo terrível seja alimentado a respeito dos evangélicos. Ele foi a primeira pessoa inclusive a nos atacar publicamente.

Rádio Jornal: O que esperam das eleições presidenciais de 2018? Candidatos evangélicos/ligados a evangélicos, como Marina e Bolsonaro, representam a religião? A permissão do aborto deve estar no programa do governo do próximo presidente?

O cenário eleitoral do próximo ano é desanimador no que tange aos "crentes" que estarão na disputa. Acreditamos em um programa político que rompa radicalmente com o neoliberalismo implementado pelo PMDB, que rompa com as reformas políticas que atacam a classe trabalhadora e que rompa com o discurso conservador da bancada evangélica que legítima medidas e ações contra mulheres, negros e negras e LGBTTs.

Também não acreditamos mais que um modelo político de conciliação de classes dê certo. Seguimos acreditando na radicalização da democracia, no enfrentamento ao capital e ao patriarcado.

A legalização do aborto

Rádio Jornal: Vocês enxergam diferenças entre legalização e descriminalização?

Frente Evangélica: Sim. Existe bastante diferença. A luta pela descriminalização é o primeiro passo. É fazer com que o aborto não seja mais crime e por consequência, que as mulheres não sejam mais encarceradas. Isso cria espaço pra gente exigir a legalização, que é tornar o aborto uma questão oficialmente de saúde pública no Brasil, com o SUS assistindo as mulheres e dando acompanhamento.

Então, primeiro passo é tirar isso da pauta da segurança pública e da polícia. É o segundo passo, transformar em uma questão de saúde.

Rádio Jornal: Qual a opinião de vocês sobre o Estatuto do Nascituro e a PEC 181?

Frente Evangélica: A PEC 181 é uma manobra absurda pra tentar colocar validez no Estatuto do Nascituro. Por isso a chamamos de PEC Cavalo de Troia. É uma iniciativa absurda de fazer retroceder nos poucos direitos que nos eram assegurados. Submeter uma mulher vítima de um estupro a levar uma gestação até o fim, submeter mulheres com risco de vida a levarem adiante a gestação mesmo que lhes viste a vida, é um nítido atentado aos direitos humanos. Repudiamos essa PEC que pra nós é uma PEC que acelera um projeto político nefasto de extermínio das mulheres negras e pobres. Como cristãs, não compactuamos com isso.

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As dificuldades de diálogo

Rádio Jornal: Como está a recepção da sociedade em geral pela ideia da Frente? Desde quando vocês estão organizadas?

Frente Evangélica: Na nossa primeira reunião, o lugar onde seria o encontro foi atacado. Janelas quebradas, objetos quebrados, pichações… O vídeo do Malafaia nos atacando foi outro marco que incentivou os haters a nos atacarem, ameaças de morte, palavras de ódio têm sido constantes. Fora a mídia gospel fundamentalista alimentando o fascismo que se levanta contra nós todos os dias.

Mas a despeito de tudo isso, a repercussão está muito boa. Muitas mulheres nos procurando pra se somar a construção da Frente e um verdadeiro levante feminista nas igrejas em apoio a nossa iniciativa.

Expectativas para o futuro

Rádio Jornal: Qual a expectativa de vocês com a organização?

Frente Evangélica: Acelerar o processo de debate na sociedade sobre o assunto. Ajudar a desconstruir os mitos que envolvem o aborto, principalmente a partir da perspectiva religiosa e contribuir com os grupos e coletivos que já tem lutado dia e noite em defesa da vida. Avançar em um construção política que possa culminar na legalização do aborto e, por tanto, na preservação da vida.

Quero chamar as mulheres de Recife para construírem a frente com a gente. Para participar é só entrar em contato pela página.

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