Vulnerabilidade

Invisibilidade e solidão: a realidade de quem vive nas ruas do Recife

''Ainda sonho em voltar para casa e ter uma família'', diz homem que 'mora' dentro de uma caixa de papelão

Thales Kírion
Thales Kírion
Publicado em 25/12/2017 às 8:00
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A apatia maltrata e reduz o ser humano à invisibilidade; transforma gente em cenário, em rua, em calçada. Não olha idade, sexo ou cor. Hoje, de acordo com a prefeitura do Recife, cerca de 1.200 pessoas moram nas ruas da capital pernambucana, embora ignoradas por boa parte da população. “São pedintes, vagabundos, só estão ali para se aproveitar e nada mais”, foi o que ouviu a reportagem de transeuntes no Centro do Recife, ao perceberem que o foco da matéria eram as pessoas em situação de vulnerabilidade.

Além do frio, da fome e da solidão, o preconceito também está presente na rotina de quem vive nas ruas. “Só por que a gente é moreno eles acham que somos ladrões (sic)”, acredita Arlan Fragan, 18 anos, que sofre por ser negro, transexual e viver nas ruas. Todos os dias, ele dorme embaixo da marquise do Banco do Brasil da Rua Sete de Setembro, no bairro da Boa Vista. “O Natal da gente é péssimo porque não temos a nossa família. Aí a gente mesmo constrói nossa família (entre as pessoas que vivem a mesma realidade) e faz a nossa felicidade”, afirma.

Apesar das dificuldades, Arlan enfrenta o dia a dia com um sorriso no rosto. Com brincos e maquiagem, só permitiu ser fotografado pela reportagem após arrumar o cabelo e a roupa. “Posso ver como ficou?”, perguntou ao fotógrafo. Ele sonha em ser cabeleireiro e atualmente faz um curso de capacitação em uma instituição beneficente no bairro de Santo Amaro.

Assim como Arlan, Marcone dos Santos, 45 anos, também não perdeu a esperança, mesmo vivendo há mais de 30 nas ruas da cidade. “Ainda sonho em voltar para casa e ter uma família”, afirma. Atualmente ele “reside” em uma caixa de papelão na rua da Aurora, área central da cidade. O flanelinha tinha irmãos, mãe, pai e tia: um lar completo na Zona Norte do Recife. Saiu de casa aos 10 anos, depois de um desentendimento familiar, e cresceu sozinho nas ruas. “Eu não tenho mais contato com minhas irmãs, meus irmãos, nem com minha tia, nem nada. Eles pensam que eu morri, mas eu estou vivo. Eu sinto falta deles”, conta.

Quando a vida nas ruas começa cedo

De acordo com o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, mais de 23 mil crianças e adolescentes vivem nas ruas no Brasil. No mundo, o número chega a 150 milhões, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Não há número oficiais sobre crianças e adolescentes morando nas ruas do Recife, mas basta passear pela cidade para ver que não são poucas.

Missilene Pessoa, de 28 anos, vive em situação de rua com os dois filhos, uma bebê de colo e um menino de oito anos. “Comecei a trabalhar cedo, tomando conta de criança. Não tive nem infância direito. Parei meus estudos com 12 anos, aos 20 fui mãe e até hoje estou nessa”, conta. A mulher costuma ficar na Rua do Imperador, no Bairro de Santa Antônio. Sobre o futuro dos filhos, Missilene não esconde a tristeza. “É difícil, fico triste. O coração da gente fica partido, mas a gente não está aqui porque quer”, fala.

Centros da prefeitura do Recife oferecem acolhimento

A prefeitura do Recife possui oito Centros de Reintegração Social para pessoas em situação de rua, além de dois Centros de Referência Especializados que fica no bairro de Santo Amaro (Centro) e na Madalena (Zona Norte) voltados para casos considerados mais urgentes. Nos espaços são oferecidos cursos profissionalizantes, alimentação, banho, dormitórios e atendimento psicológicos.

Fábio Gomes, de 33 anos, vive há sete meses no Centro do bairro do Cordeiro, Zona Oeste da cidade. Diz que a separação da ex-companheira e a depressão o levou para as ruas, onde passou quase seis anos. “O Natal para mim era muito ruim porque eu estava longe da minha família e dos meus dois filhos. As pessoas vinham, davam uma força, presentes, comida, isso não faltava, mas o que faltava era a vontade de viver. Porque a distância da família era o que mais me atormentava”, disse.

Com a mudança de vida, Fábio já fez alguns cursos e retirou os documentos. Hoje comemora a reaproximação com a família. “Minha ex-companheira voltou a confiar em mim. Pesava 52kg, hoje estou com 90kg. Também consegui resgatar o contato com a minha família. Já converso com meu pai pelo telefone”, diz emocionado.

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Modelo é alvo de críticas - O plano Municipal de Atenção Integrada à População em Situação de Rua foi implantado pela prefeitura do Recife em 2015. Segundo Igor Sacha, do movimento Seja a Mudança, o plano está defasado em 10 anos porque foi baseado em dados de 2005. “Além disso, as ações estão atrasadas. Estão previstos restaurantes populares comunitários e abrigos temporários noturnos. Mas até agora não saiu do papel”, reivindicou.

Igor Sacha ainda diz que a gestão precisa revisar as prioridades dos investimentos. “Estamos prestes a dar início às festividades carnavalescas. Não quero acabar com o Carnaval, mas é preciso reavaliar o investimento. São gastos milionários com o Carnaval e algo que deveria ser prioritário pela prefeitura, não está sendo priorizado”, argumentou.

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