O professor emérito de Ciência da Computação da Universidade Federal de Pernambuco, Sílvio Meira, acredita que apenas de 2% a 5% dos votos brasileiros serão modificados por influência de informações acessadas nas redes sociais, nas eleições brasileiras deste ano. Sílvio, que também é cientista e empreendedor, conversou com a bancada do programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta quarta-feira (23). Ele avaliou o cenário das próximas eleições diante da possibilidade de interferência das redes sociais no resultado do pleito.
“A rede vai ter influência sobre as eleições, assim como tem influência sobre quase tudo”, comenta o professor. Ele cita um relatório da consultoria Bites, publicado recentemente, apontando que a rede vai ter um impacto sobre 41% dos votos. “Não é que ela vá influenciar o voto, mas é que 41% dos eleitores se informam primordialmente através da web e dos aplicativos”, destaca. Sílvio lembra que a maioria dos adultos passa a maior parte do seu tempo de consumo de informação colado na tela de um computador ou de um smartphone. “A informação chegará para as pessoas através das redes e, particularmente, pelas redes sociais. Ao mesmo tempo, a minha opinião, apesar do relatório da Bites, é que o impacto direto das redes nestas eleições, mudando votos, é de 2% a 5% do voto, no máximo”, destaca.
Pressão para direcionar a opinião pública e influenciar nos resultados, entretanto, não vai faltar. “A gente precisa entender que a Rússia tem uma campanha para mostrar que a democracia é um sistema colapsado, fracassado na base. Querem mostrar que a gente deveria ter um sistema similar ao deles: uma autocracia que passa por eleições mais ou menos visíveis como sendo democráticas, apesar de serem extremamente difíceis de serem qualificadas como tal”, destaca.
Sílvio recorda que o país euroasiático atuou, de forma eficiente, para modificar os resultados do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e das eleições norte-americanas. “À Rússia, interessa que Trump seja o presidente dos EUA, que haja uma crise na Alemanha, que a Grécia vá para a direita, e assim por diante. Essa campanha da Rússia é global e a gente pode esperar tudo deles”, alerta.
Apesar de acreditar que manipular a democracia brasileira seja muito interessante para os russos, Sílvio Meira defende que não existe mais essa possibilidade. “O Brasil tem uma das maiores áreas territoriais do mundo, é um dos maiores produtores de grãos e tem a quinta ou sexta maior população do mundo. Para quem quer influir nos destinos das democracias do mundo, interessa muito mais que o Brasil seja governado por populistas autoritários, que é o caso de Putin (presidente russo), do que a Venezuela, por exemplo”, situa o professor. Entretanto, ele comenta que as ferramentas que possibilitaram a interferência nas eleições dos EUA foram desativadas.
“O que aconteceu exatamente nas eleições americanas, francesas e no Brexit não acontecerá em nenhuma outra eleição. As portas para que isso ocorresse, que eram as interfaces diretas entre sistemas de informação e Facebook, foram fechadas”, afirma. A desabilitação dessas interfaces veio como consequência do escândalo causado pela descoberta da manipulação da opinião pública. “Essa interferência nas eleições dos Estados Unidos não foi um fato único, mas foi lá que a gente entendeu o poder de manipulação quando se tem à disposição uma infraestrutura de redes sociais que pode influenciar o comportamento de 40% a 50% dos eleitores, em função da informação que eles recebem” ressalta Sílvio.
Confira a entrevista completa:
Ele pontua ainda que, no Brasil, existe uma poderosa rede “submersa”, cujo comportamento público não é perceptível, mas que funciona para espalhar notícias, incluindo notícias falsas, que é o Whatsapp. “Cada brasileiro participa de dezenas de grupos de trabalho, da família, dos amigos, dos amigos da escola, dos torcedores do seu time de futebol. Então, a rede informará e desinformará as pessoas dependendo de que lado da rede as pessoas estejam consumindo informação”, descreve. Para o professor, a atenção ao conteúdo compartilhado pelo aplicativo de mensagens deve ser redobrado. “O senso crítico de cada um de nós vai ser absolutamente fundamental para entender a informação que está chegando”, avalia.
Sílvio Meira alerta ainda que a tentativa de implantar mecanismos de controle, para melhorar a informação dos eleitores a respeito dos candidatos, pode não surtir nenhum efeito. Questionado a respeito de um aplicativo que indica se um político responde ou não a processos na Justiça ao se apontar para uma fotografia do candidato, Sílvio Meira vê dois problemas: a idoneidade dos aplicativos e a possibilidade de seu uso ser massificado.
“Tudo depende de como vai ser feita a curadoria da informação de um sistema desses, de quem escolhe o que vai ser colocado no aplicativo e como vai ser colocado. Uma coisa que a gente tem que prestar a atenção, toda vez que olha para um sistema de informação, é o conjunto de princípios éticos e morais de quem cria um aplicativo ou software”, esclarece. Outro ponto, segundo Sílvio Meira, é dificuldade de adesão a essas plataformas. “A probabilidade de um aplicativo desse pegar no Brasil é muito baixa. As pessoas já têm perto de 90% do seu tempo na web tomado por um conjunto de aplicativos-padrão, como Whatsapp, Facebook, Twitter, Google e YouTube, por exemplo. Para você inserir um aplicativo novo no celular é preciso uma estratégia de marketing digital muito sofisticada”, comenta o professor.