CIÊNCIA E SAÚDE

Especial: a neurocirurgia e o renascimento das vítimas de acidentes de trânsito


Série de reportagens revela as lesões mais comuns sofridas por acidentados no trânsito e as cirurgias inovadoras que dão vida nova aos pacientes

Maria Luiza Falcão
Maria Luiza Falcão
Publicado em 07/08/2018 às 13:06
Foto: Bernardo Soares/Acervo JC Imagem
FOTO: Foto: Bernardo Soares/Acervo JC Imagem
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De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,25 milhão de pessoas morre anualmente, no mundo, vítimas de acidentes de trânsito. O Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) estima que, a cada 12 minutos, alguém morre no trânsito brasileiro. Além das mortes, cerca de 400 mil pessoas ficam com alguma sequela depois dos acidentes e representam um custo de R$ 56 bilhões por ano para a rede pública de saúde.

Nestas segunda e terça-feiras (6 e 7), a Rádio Jornal exibe uma série de reportagens sobre a relação entre a neurocirurgia e o tratamento de traumatismos de trânsito. Na primeira matéria, você vai saber quais as principais lesões neurológicas e os impactos sofridos por quem se acidentou no trânsito. Entenda na voz de Marcelo Barreto e Natália Hermosa:

O Hospital da Restauração, no Recife, é a maior emergência de traumatologia do Nordeste. Nos sábados e domingos, o movimento representa quase 50% da quantidade de atendimentos dos outros cinco dias da semana.

João Veiga é coordenador do Comitê Estadual de Prevenção aos Acidentes de Moto
João Veiga é coordenador do Comitê Estadual de Prevenção aos Acidentes de Moto
Foto: Arquivo/JC Imagem

O destaque vai para os acidentados com moto, que representam 57% dos atendimentos. As vítimas são principalmente homens com idade entre 17 e 34 anos. Só em Pernambuco, são gastos R$ 600 milhões por ano com pacientes vítimas deste tipo de acidente. “Amputação dos pés e traumatismos cranianos são os problemas mais comuns que chegam ao Hospital. O terceiro é lesão na coluna, que deixa o paciente paralítico”, afirma o médico João Veiga, coordenador do Comitê Estadual de Prevenção aos Acidentes de Moto (Cepam) sobre as lesões mais graves sofridas por motociclistas que se envolvem em acidentes.

O médico neurocirurgião Nivaldo Sena de Almeida afirma que os traumas cranianos podem comprometer até o movimento dos pacientes
O médico neurocirurgião Nivaldo Sena de Almeida afirma que os traumas cranianos podem comprometer até o movimento dos pacientes
Foto: Marcelo Barreto/Rádio Jornal

Entre os acidentados atendidos no Hospital da Restauração, 28% não usavam capacete. Um terço deles apresentou traumatismo cranioencefálico e politraumatismo, lesões que afetam crânio, cérebro, coluna, tórax, além de braços e pernas. O médico neurocirurgião Nivaldo Sena de Almeida afirma que os problemas podem comprometer até o movimento dos pacientes, uma das consequências do neurotrauma. Quando o paciente perde uma parte do crânio pode passar a ter dificuldades para fazer tarefas simples do dia a dia como pegar um copo ou até tomar banho.

Reconstrução

Na segunda reportagem da série, entenda como a reconstrução craniana ajuda pacientes que ficaram com deformidades. Ouça na voz de Marcelo Barreto e Natália Hermosa:

Há cinco anos, o motoboy Cláudio Nunes sofreu um acidente de moto quando saía de uma pizzaria para fazer uma entrega. Por causa da gravidade do acidente, os médicos precisaram retirar parte do crânio dele e o rosto ficou deformado. O presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), Ronald de Lucena Farias, explica quando esse procedimento é necessário.

A vida do motoboy Cláudio mudou um ano e meio depois do trauma. Ele fez cranioplastia, uma cirurgia indicada para corrigir defeitos ou deformidades no crânio. O procedimento começou a ser realizado no hospital da restauração em 2014 e já atendeu a 75 pessoas. Uma equipe formada por neurocirurgiões e um cirurgião plástico se encarrega de recolocar a parte perdida da cabeça.

O cirurgião plástico Pablo Maricevich é responsável pela reconstrução craniana
O cirurgião plástico Pablo Maricevich é responsável pela reconstrução craniana
Foto: reprodução/arquivo pessoal

O cirurgião plástico Pablo Maricevich é um dos responsáveis pela reconstrução. O trabalho dele é fundamental no processo. Para fazer a cranioplastia, o paciente precisa está recuperado. A parte do crânio recolocada é feita com cimento cirúrgico, mas o molde da peça precisa ser solicitado pelo médico ao Centro de Tecnologia da Informação Renato Acher, que fica em campinas, São Paulo.

O Centro é ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. É lá que o pesquisador Jorge silva faz os moldes.

O molde é enviado de São Paulo para o Recife e leva em média uma semana pra ficar pronto. O Hospital da Restauração é quem mais usa no Brasil essa tecnologia. Próteses de outros materiais podem chegar ao preço de R$ 180 mil. Como existe uma parceria entre o Hospital da Restauração e o projeto do Centro de Tecnologia da Informação Renato Acher, tudo é de graça.

O custo é bancado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Em 20 anos, o projeto já beneficiou 5.400 pessoas em todo o país na confecção dos mais variados tipos de próteses.

Atualmente, cerca de vinte pacientes estão na fila esperando as próteses, enquanto outros 20 já estão com as peças prontas à espera da cirurgia no Hospital da Restauração.

*A reportagem foi produzida e realizada pelos jornalistas Marcelo Barreto e Natália Hermosa. A matéria em áudio teve trabalhos técnicos de Evandro Chaves.


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