AMEAÇA

Ex-mulher afirmou ter sofrido ameaça de morte de Bolsonaro, diz Itamaraty

Documento de 2011 revela que Ana Cristina saiu do país por causa de Bolsonaro

Rádio Jornal
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Publicado em 25/09/2018 às 18:43
- Eduardo Anizelli / Folhapress
FOTO: - Eduardo Anizelli / Folhapress

A ex-esposa do candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), Ana Cristina Valle, afirmou ao Itamaraty que foi ameaçada de morte por ele, o que causou a saída dela do país. O relato foi feito em 2011 através de um telegrama que foi reservado e arquivado pelo órgão, que a Folha de São Paulo teve acesso. Na época, o ex-capitão e Ana Cristina, travavam uma batalha judicial pela guarda do filho de 12 anos.

“A senhora Ana Cristina Siqueira Valle disse ter deixado o Brasil há dois anos [em 2009] ‘por ter sido ameaçada de morte’ pelo pai do menor [Bolsonaro]. Aduziu ela que tal acusação poderia motivar pedido de asilo político neste país [Noruega]”, diz o telegrama.

Em outro momento, Ana Cristina disse considerar que, ao procurá-la, o vice-consulado do Brasil na Noruega “estava agindo em nome do deputado federal Jair Bolsonaro”.

Atualmente, Ana Cristina, usa o sobrenome “Bolsonaro” e é candidata a deputada federal pelo Podemos. Apesar do caso, ela afirmou ter superado e que apoia a candidatura do ex-marido ao Planalto.

De acordo com a reportagem da Folha, Bolsonaro mobilizou o Itamaraty em 2011, para que o órgão intercedesse em seu favor depois que a ex-mulher viajou com o filho para a Noruega.

O site do Itamaraty afirmou que não pode interferir em assuntos pessoais de brasileiros no exterior. No entanto em 2011, localizou e manteve contato com Ana Cristina a pedido de Bolsonaro.

Sem Legenda

Telegrama

A afirmação dela sobre a suposta ameaça de morte consta na íntegra em um telegrama em julho de 2011 enviado a Brasília pela Embaixada Brasileira em Oslo e escrito por Cardim a partir de informações prestadas pelo vice-cônsul na Noruega.

Procurado pela reportagem, o diplomata, professor do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília), disse se recordar do conteúdo do documento. Ele contou que, em julho de 2011, foi acionado por escrito pelo Itamaraty, em Brasília, e também procurado por Bolsonaro, com quem conversou por telefone. Segundo Cardim, Bolsonaro estava contrariado com o fato de sua ex-mulher ter viajado, sem a sua autorização, com o filho para a Noruega.

Após a conversa com o deputado, em embaixador recebeu as informações do vice-cônsul do Brasil em Oslo, que havia entrado em contato telefônico com Ana Cristina.

“Foi explicada a ela a legislação do Brasil, da Noruega. E aí ela mencionou para o vice-cônsul que estava pensando em pedir asilo. E que teria dito ao Telegrama com acusação contra Bolsonaro - Reprodução vice-cônsul que sofreu uma ameaça de morte do deputado Bolsonaro. E o vice-cônsul me transmitiu isso”, descreveu o ex-embaixador.

A íntegra de outro telegrama, agora também obtida pela Folha, mostra que Bolsonaro relatou ao Itamaraty que Ana Cristina havia obtido um passaporte para seu filho “com base em certidão de nascimento expedida antes do reconhecimento de paternidade feito pelo deputado Bolsonaro”. Dessa forma, no documento constaria apenas o nome da criança como Renan Valle, sem o sobrenome do deputado, e, no campo da filiação, não aparecia o nome do pai. O telegrama não esclarece quando Bolsonaro reconheceu a paternidade do menino. Na reunião em Brasília, Bolsonaro disse, segundo o telegrama, que seu filho morava há dois anos em sua residência do Rio de Janeiro, “onde frequenta escola e tem sua vida estruturada”. O deputado disse ainda que o gesto da ex-mulher “constituiria falsidade ideológica com intuito de sequestro” e, por isso, pediu a “gestão do Itamaraty para averiguar as condições em que estaria o menor”.

Outro lado

Até o fechamento da reportagem da Folha, Jair Bolsonaro não havia se pronunciado.

Na semana passada, a ex-mulher do presidenciável afirmou que ele se equivocou e que ela não tinha a intensão de fugir com a criança, mas que queria apenas passar férias com o filho, pois o mesmo reclama a presença da mãe.

“Foi uma pressão que [Bolsonaro] fez. Mas é uma questão de pai, de foro íntimo, entendeu, de família mesmo. Eu achava que ele nem deveria ter feito isso, mas se ele fez... E depois acabou tudo bem, ele tirou a ação [que corria no Rio] e ficou tudo bem. [...] É coisa de pai, que eu respeito ele, porque ele tem um amor fora do comum pelos filhos”, disse Ana Cristina.

Nesta terça-feira (25), novamente procurada pela reportagem, Ana Cristina disse por mensagem de aplicativo de telefone celular que “não falou com nenhum cônsul ou vice”. Indagada se falaria com a reportagem ao telefone, ela respondeu: “Sobre este assunto não tenho nada a dizer”. Questionada se houve ameaças de morte de Bolsonaro contra ela por volta de 2009, ela respondeu que havia conversado com seu marido norueguês e ele “falou que não disse nada disso”. “Acho que vocês estão pegando pesado falando isso”, escreveu Ana Cristina.