ANÁLISE

Primeiros cem dias do Governo Bolsonaro são debatidos no Radar, da Rádio Jornal

Temas como inovação, política, responsabilidade social, educação e segurança foram inicialmente discutidos de forma individual e depois de forma interdisciplinar

Arlene Carvalho
Arlene Carvalho
Publicado em 05/04/2019 às 22:13
Alexandre Gondim/JC Imagem
FOTO: Alexandre Gondim/JC Imagem
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Os cem primeiros dias do Governo Bolsonaro foram a pauta do programa Radar, da Rádio Jornal, nesta sexta-feira (5). Wagner Gomes discutiu temas como inovação, política, responsabilidade social, educação e segurança com os especialistas, aproveitando a oportunidade para interligar os assuntos e avaliar as decisões tomadas pela equipe e pelo próprio presidente Jair Bolsonaro.

Os tópicos foram inicialmente discutidos de forma individual e depois de forma mais interdisciplinar. A segurança pública, um dos mais fortes pilares da corrida à Presidência, foi amplamente discutida. Para José Luiz Ratton, sociólogo e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Políticas de Segurança da UFPE e do Observatório de Políticas de Drogas de Pernambuco, dois temas essenciais merecem destaque: a nova política de armas e o pacote anticrime do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

“Creio que a área de segurança guarda similaridades com as incapacidades, política e gerencial, desse governo, juntamente com as outras áreas. O ministro Sérgio Moro foi incapaz de construir uma relação de diálogo com todos os setores que poderiam participar da produção de uma proposta ampla, plural, consonante com a garantia de direitos ,ao mesmo tempo, eficiente na segurança pública”, começa.

“No mês de janeiro, vimos uma movimentação que inicia o desmonte dos processos de desarmamento que nos últimos governos tinham sido construídos no Brasil. Isso aumenta as possibilidade das pessoas terem armas em casa, mesmo quando pesquisas do mundo todo mostram que, em contextos desiguais, o aumento do porte e a posse de arma, aumenta a circulação e estoque e também faz crescer a violência, com impacto especial para os crimes dentro de casa, como o feminicídio no Brasil, onde temos índices alarmantes”, continua Ratton.

Para o sociólogo, o pacote anticrime de Moro tem problemas de método e de conteúdo e pode acabar agravando a situação da segurança pública no país. “É um pacote que não tem nada sobre prevenção de violência, zero. Não tem uma linha sobre prevenção do crime. Neste quesito, o governo tem produzido coisas que podem piorar situação da segurança pública no Brasil, finaliza.

Combate à corrupção

No que condiz a outro pilar da campanha, o combate à corrupção, o diretor-presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, afirma que “poucas promessas estão sendo sinalizadas de forma concreta”.

“Bolsonaro perdeu quase um terço do eleitorado que o apoiava, segundo a última pesquisa divulgada. O ministro Sérgio Moro disse que outros governos foram omissos à corrupção, mas nós temos que esperar os quatro anos para saber se este governo também não será omisso”, pontua. “Especialistas afirmam que os governos dos últimos 20 anos foram os que mais conseguiram avançar nas regras e institucionalidades necessárias para o combate à corrupção. Três exemplos são muito claros: a criação da CGU, em 2003; a aprovação da Lei de Acesso à Informação e a Lei Anticorrupção, em 2013. Não acredito que a cruzada contra a corrupção, anunciada lá atrás, esteja se mostrando nesse momento”, continua.

Inovação e Comunicação

Quando se fala de tecnologia e as coisas que o Brasil tem feito para crescer no cenário internacional e para renovar as políticas públicas de estímulo à inovação, o fundador do Cesar e presidente do conselho do Porto Digital, Silvio Meira, afirma que “não há nada de novo na nossa falta de projetos”.

“Há 30, 40 anos que o Brasil não tem conjunto de grande desafios nacionais. O Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações não apresentou nada de novo. O que pode ser considerado uma novidade é o uso por outros países, que não o Brasil, do nosso centro de lançamento em Alcântara, no Maranhão. Mas isso, ao meu ver, não muda nossa política aeroespacial”, explica.

“O Brasil possui desafios imensos a enfrentar, mas não há uma síntese desses desafios como grandes problemas nacionais, e dessa forma, não se pode escolher o que pode ser resolvido primeiro e, desta forma, aumentar a competitividade como país”, analisa.

Em contrapartida, as comunicações no Governo Bolsonaro têm se “aproximado do eleitor e do cidadão” e estão inserindo o Brasil num contexto de transformações, como conta o cientista político Juliano Domingues.

“Essa busca do Presidente por um contato mais direto com o povo não é novidade. A ferramenta usada passa por mudanças, mas a intenção não. Ela parte de umas estratégia para conseguir esses objetivos. A comunicação não está descolada de um objetivo específico e traçado de maneira racional pelo governo”, comenta.

Segundo Domingues, a utilização das ferramentas tem ajudado ao governo a conseguir seus objetivos. “Temos duas hipóteses principais: de que se tenha uma estratégia muito bem planejada ou a ausência de qualquer plano estratégico”, finaliza.

Educação

A educação, que segundo o professor e diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves, encontra-se estagnada, já sofreu prejuízos muito claros.

“Muitos projetos estão praticamente parados, como a implementação da Base Nacional Comum Curricular, o Fies, e o próprio Enem. Mas a preocupação maior é que estamos sentindo o ministro Vélez enfraquecido, sem liderança e sem conseguir montar nem a sua equipe de trabalho. Acompanho o Ministério desde a época de Itamar Franco e nunca vi nada parecido desde essa época”, afirma.

Considerando que a educação possui um papel estratégico e pode ser considerado o” novo nome para o desenvolvimento”, Neves entende como grave a situação da pasta no Governo Bolsonaro.

“Nós temos essa situação atual do Ministério da Educação, que eu entendo como grave, mas pelo menos o Presidente [Bolsonaro] reconhece a existência de um problema sério de gestão no MEC. Hoje tivemos ainda uma medida do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União para ver os danos causados por esse ‘imobilismo’ do MEC e quais as consequências disso para a educação brasileira”, finaliza Mozart Neves.

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