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Fala de Bolsonaro que negou a fome é questionada por especialistas

Dado da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura aponta que há cinco milhões de brasileiros que passam fome no Brasil

Priscila Miranda
Priscila Miranda
Publicado em 30/07/2019 às 10:46
Juliana Oliveira/ Rádio Jornal
FOTO: Juliana Oliveira/ Rádio Jornal

A fala do presidente da República Jair Bolsonaro, declarada durante uma coletiva de imprensa, no Planalto, em Brasília vai de encontro aos cinco milhões de brasileiros que passam fome no País. O dado faz parte dos estudos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, principal órgão internacional de incentivo a políticas de combate à fome e à promoção do alimento.

O órgão divulga, desde 1990, o Mapa da Fome, um estudo que reúne e analisa dados sobre a situação da segurança alimentar da população mundial. Embora o número ainda seja alarmante, desde 2014, o Brasil não faz mais no Mapa da Fome.

Ouça a reportagem de Beatriz Albuquerque:

Para o professor do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e doutor em sociologia, Luiz Carlos Pinto, a fala de Bolsonaro é estratégica.

“O problema está justamente no fato de que, essa estratégia de negação tem uma certa função de desinformação e uma cortina de fumaça para algumas das medidas muito impopulares que o governo vem tomando desde o seu início. Uma segunda função dessa estratégia de negação, que eu repito, não é simplesmente de ignorância, é justamente uma descrença na ciência, uma tentativa de minar a necessidade e a importância do pensamento racional.”

Ele explica ainda a relação entre o discurso e a questão das políticas públicas voltadas à fome. “É um argumento implícito da desnecessidade de algumas políticas públicas. No caso da fome, negar que existe fome, implicitamente é negar a existência de uma população que requer, reivindica e precisa a presença do estado como um ator que regula e que minimiza os efeitos da fome.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, é nas regiões Norte e Nordeste do país que se concentram a maior população em situação de fome. A questão é antiga. De acordo com o primeiro mapa alimentar do brasil, feito pelo geógrafo pernambucano Josué de Castro, a região amazônica e o litoral nordestino tinham as maiores concentrações de epidemias de fomes. Embora o estudo tenha sido publicado em 1946, a mesma realidade ainda perturba.

O voluntário do projeto social Sabor Solidário Ednaldo Souza conhece de perto esta realidade. Ele trabalha há cinco anos distribuindo refeições para pessoas em situação de rua.

“Muitas pessoas em situação de rua, quando nos abordavam, diziam que tinham um desejo de fazer uma outra refeição, de ter um outro alimento. Então, nós saímos dessa realidade da sopa e fomos para as quentinhas. Nós servíamos cuscuz, salsichinha, um cardápio mais reforçado, mas também muito simples. E é bem triste porque, nesses encontros, a fome fala tão alto que eles até ficam impacientes, com medo de não pegar a refeição. A gente percebe algumas situações de agonia.”

Questionado sobre a declaração que não há fome no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro amenizou ao garantir que o povo brasileiro se alimenta mal e alguns passam fome.