Educação

Educação pós-pandemia: falta de acesso à tecnologia dificulta vida de alunos de baixa renda

De acordo com dados do TIC Educação, 39% dos alunos de escolas públicas não tinham sequer acesso a computador ou tablet em casa.

Com informações de Cinthia Ferreira
Com informações de Cinthia Ferreira
Publicado em 26/10/2021 às 15:20
Reprodução TV Jornal
FOTO: Reprodução TV Jornal
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Mais de dois milhões de estudantes pernambucanos precisaram se adaptar à nova realidade imposta pela pandemia da covid-19, com aplicativos e aulas online. Porém, a falta de acesso às tecnologias foi uma das principais dificuldades enfrentadas. Para esclarecer e fazer você entender melhor esse processo, a equipe de reportagem da TV Jornal preparou uma série de reportagens com o tema Educação: Pós-pandemia, desafios e soluções. Veja reportagem:

Seja pelo celular ou pelo computador, crianças e adolescentes foram apresentados a um ensino diferente do que estavam acostumados: às aulas remotas. A professora universitária Carla Borba teve que providenciar uma sala de estudos equipada para que os três filhos estudassem de forma confortável. Na casa, já havia 3 notebooks à disposição dos adolescentes. Ainda assim, foi necessário um investimento de quase R$ 2.300,00.

"A gente precisou comprar uma mesa para um, precisamos melhorar os notebook's. A gente teve um problema sério de tecnologia, tivemos que fazer uma pequena reforma em casa", comentou a professora.

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Os filhos gêmeos de Carla passavam quase 6h por dia na frente do computador. A mesma carga horária que tinham quando a escola estava funcionando presencialmente. Através de uma plataforma gratuita, oferecida pelo Google, a escola, que é particular, enviava links de atividades e de aulas online ao vivo, para que os estudantes pudessem interagir com os professores. "Na primeira semana todo mundo não gostou, porque dispersava muito, não dava para aprender muito bem", contou Vitor Borba, um dos filhos da professora.

Mas, infelizmente, a adaptação na casa família Borba não é a realidade da maioria dos estudantes brasileiros. De acordo com o TIC Educação, 39% dos alunos de escolas públicas não tinham sequer acesso a computador ou tablet em casa. Nas escolas particulares, o índice era de 9%. Conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cerca de 6 milhões de estudantes da pré-escola até a pós-graduação, não tinham acesso à internet banda larga ou 4g e não estavam conseguindo acompanhar as aulas online.

Ensino remoto de forma precária

Por causa dessa falta de conectividade e de acesso às tecnologias, o ensino remoto das redes municipais, por exemplo, foi feito de forma precária. Maria flor, de 12 anos, aluna da rede municipal do Recife, sentiu na pele o drama de acompanhar as aulas remotas.

“O celular que eu tinha, ele quebrou. o celular que tinha disponível lá, o aplicativo que a gente usa pra poder assistir às aulas não pegava. então eu tive que usar o celular da minha avó, que ela não usa muito… então fui lá, pra usar o celular dela e… a internet caía e eu estava tendo que usar o 3g do chip, que a escola tinha dado. mas era bem pouquinho, não era muito bom”, relatou a estudante.

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Dados

Devido essa falta de acesso à tecnologia, o ensino remoto de quase 100% das escolas das redes municipais de Pernambuco foi feito praticamente com materiais impressos (100%) e aulas no WhatsApp (99,24%). As aulas gravadas foram utilizadas por 86,46% dos municípios e um mais de 90% (92,48%) deram orientações por aplicativos. Pouco mais da metade dos municípios (51%), que responderam à pesquisa, tiveram aulas online ao vivo. Cerca de 40% usaram plataformas educacionais.

Mudança milenar

Para o professor e cientista da computação, Sílvio Meira, as mudanças repentinas no modelo de ensino, aconteceram numa área que resiste há séculos a qualquer tipo de inovação.

“A mudança no sistema educacional é muito lenta. Para você ter ideia a gente tem hoje a mesma estrutura de currículos, de salas de aulas e de aulas dentro das salas de mil anos atrás, de antes da pandemia, de 1.346. Se você para uma sala de aula em 1.200 e voltasse para uma sala em 2020 você veria praticamente a mesma coisa. E o que a gente fez durante a pandemia não foi criar um novo modo de educação no espaço digital que está aí há algum tempo. Uma combinação do físico com o digital e o social. A gente fez uma coisa em quase todas as instâncias em quase todos os sistemas. A gente colocou a aula online. E a aula é uma ferramenta de criação de oportunidade de aprendizado que está obsoleta há séculos”, comentou o cientista.

Um novo mundo

Mas nem as escolas nem os professores estavam preparados para esse novo modelo de ensino. a falta de metodologia para o modelo remoto, a pouca afinidade com o uso das tecnologias e falta de estrutura foram as principais dificuldades. "A gente ainda não tinha perfil de estúdio, a gente só tinha o meet. Que era a câmera do computador e o aluno. A gente também tinha muita dificuldade também de fazer com que o aluno participasse, que ele abrisse a câmera, em alguns momentos a gente percebia que eles estavam inibidos, não queriam abrir. Essa dificuldade tem até hoje", contou.

O gerente de politicas educacionais do Todos Pela Educação, Gabriel Corrêa, fala que para essas mudanças darem certo é necessário o apoio dos órgãos públicos. “Sem o Ministério da Educação que apoie Estados e municípios as respostas da pandemia na educação têm sido muito diferentes no nosso País, o que sem dúvida nenhuma vai contribuir para acentuar as desigualdades educacionais do Brasil", acrescentou.

Com a maioria dos alunos sem condições de acompanhar as aulas remotas, Maria Flor, muitas vezes, foi a única presente nas aulas online. Para ela, o único caminho para conquistar um sonho de infância. "Eu quero conseguir minha profissão, que é ser veterinária. Eu amo muito os bichinhos e meu sonho é passar a vida cuidando deles. por isso eu não desisti", falou a adolescente.

A educação: pós-pandemia, desafios e soluções

É uma série de histórias, iniciativas e a visão de especialistas em educação. De 26 a 29/10 série especial Educação pós-pandemia, desafios e soluções, a partir das 11h20, na TV Jornal!

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