JUSTIÇA

Incêndio na boate Kiss: veja qual o livro conta a tragédia, fotos e relembre o caso


Réus por incêndio na boate Kiss começam a ser julgados na quarta-feira (1º)

Com informações da Agência Brasil
Com informações da Agência Brasil
Publicado em 29/11/2021 às 13:56
Notícia
Wilson Dias/ABr
Incêndio na boate Kiss aconteceu em 2013 - FOTO: Wilson Dias/ABr
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Era para ser uma noite de alegria. A festa “Agromerados” marcaria a formatura de cursos como Agronomia, Veterinária e outros, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Mas o que aconteceu foi uma tragédia, uma das maiores da história recente do país.

O dia da tragédia 

No dia 27 de janeiro de 2013, a Boate Kiss, casa noturna localizada na Rua dos Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, recebeu centenas de jovens para a comemoração. No palco, dois shows ao vivo. O primeiro, de uma banda de rock. Depois, foi a vez dos rapazes da banda Gurizada Fandangueira, de sertanejo universitário. A casa estava lotada: entre 800 e mil pessoas. A boate tinha capacidade para 690 pessoas.

Ao todo, 242 pessoas morreram no incêndio
Ao todo, 242 pessoas morreram no incêndio
Agência RBS/ Aquivo

Segundo contou na época o guitarrista da banda Rodrigo Lemos, o fogo começou depois que um sinalizador foi aceso. Ele disse que os colegas de banda logo tentaram apagar o incêndio, mas o extintor não teria funcionado. Um dos componentes da bando, o gaiteiro Danilo Jaques, morreu no local.

Sobreviventes contaram que, por conta da fumaça, a visibilidade no lugar ficou completamente comprometida e muita gente teve dificuldades para encontrar a saída
Sobreviventes contaram que, por conta da fumaça, a visibilidade no lugar ficou completamente comprometida e muita gente teve dificuldades para encontrar a saída
Germano Rorato/ Agência RBS/ Arquivo

Naquele dia, as faíscas atingiram o teto revestido de espuma. Em instantes o fogo se espalhou pela pista de dança e logo tomou todo o interior da boate. De acordo com os bombeiros, a fumaça altamente tóxica e de cheiro forte provocou pânico. Aí começou a tragédia.

Vítimas eram, na maioria, jovens universitários
Vítimas eram, na maioria, jovens universitários
Deivid Dutra/ EPA/ Arquivo

Ainda sem saberem do que se tratava, seguranças tentaram impedir a saída antes do pagamento. Houve empurra-empurra. Alguns conseguiram deixar o local. Muitos que não conseguiram, desmaiaram, intoxicados pela fumaça. Outros procuraram os banheiros para escapar ou buscar uma entrada de ar e acabaram morrendo. Segundo peritos, o sistema de ar condicionado ajudou a espalhar a fumaça. Além disso, um curto-circuito provocado pelo incêndio causou uma explosão. Morreram 242 pessoas.

O que dizem os sobreviventes? 

Tragédia na Boate Kiss aconteceu em janeiro de 2013
Tragédia na Boate Kiss aconteceu em janeiro de 2013
Tarsila Pereira/ AFP/ Getty Images

Na rede social, uma das sobreviventes, Suzielle Requia, conta como conseguiu escapar da morte. Resgatada com ajuda de um amigo, ela ficou hospitalizada por dois dias, porque sentia muita falta de ar:

"Eu ouvi um grito de uma menina: 'abre, abre, a Kiss está pegando fogo'. Quando eu olhei para o palco, eu vi um clarão. Eu olhei para o meu amigo e disse: 'a Kiss está realmente pegando fogo'. E nisso ele agarrou a minha mão e me puxou. Mas eu me perdi dele, porque a fumaça já tinha tomado conta da Kiss. Eu não enxergava um palmo na frente do nariz. Até eu me bati na primeira grade, consegui pular aquela grade e caí para fora da boate. Eu desmaiei".

A terapeuta ocupacional Kelen Ferreira sobreviveu com sequelas graves. Ela perdeu o pé direito, teve queimaduras em 20% do corpo e ainda faz tratamento pulmonar:

"Eu fiquei 78 dias internada no Hospital das Clínicas de Porto Alegre. Quinze dias eu fiquei em coma induzido, mais nove na UTI, que totalizaram 24, e 54 dias no quarto. Eu revivo o 27 de janeiro todos os dias".

A perícia policial apontou que uma combinação provocou a tragédia: o material empregado para isolamento acústico (com a espuma irregular), associado ao uso de sinalizador em ambiente fechado, a saída única, as falhas no extintor e a exaustão de ar inadequada. Associado a tudo isso, o indício de superlotação.

Mudanças após a tragédia 

Tragédia na boate Kiss aconteceu em janeiro de 2013
Tragédia na boate Kiss aconteceu em janeiro de 2013
Agência Brasil

O caso comoveu o país inteiro e provocou debates sobre a segurança de casas noturnas e locais de grande aglomeração de pessoas.

Ainda em 2013, o governo do Rio Grande do Sul publicou a Lei Kiss, que estabelece normas sobre segurança, prevenção e proteção contra incêndios nas edificações e áreas de risco de incêndios no estado. O exemplo foi seguido por várias outras cidades. Uma audiência pública no Senado debateu a legislação de prevenção e combate de incêndios no Brasil.

Em fevereiro de 2013, foi criada a Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, com mais de 28 mil assinaturas, pedindo apoio do Ministério Público para a busca de justiça.

Quem são os réus? 

Ainda em março de 2013, foram presos preventivamente quatro investigados. Os réus são os sócios da Kiss, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann; o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentou naquela noite, Marcelo de Jesus dos Santos; e o produtor musical Luciano Bonilha Leão. 

Eles vão a júri popular neste 1º de dezembro, no Foro Central de Porto Alegre. Os quatro vão ser julgados por homicídio simples com dolo eventual de 242 vítimas, e tentativa de homicídio de outras 636 pessoas que ficaram feridas.

Livro conta tragédia

Livro da jornalista Daniela Arbex conta tragédia que abateu Santa Maria, em janeiro de 2013
Livro da jornalista Daniela Arbex conta tragédia que abateu Santa Maria, em janeiro de 2013
Reprodução/ Internet

Em janeiro de 2018, a jornalista Daniela Arbex lançou o livro "Todo Dia a Mesma Noite: A história não contada da boate Kiss". A reportagem definitiva sobre a tragédia que abateu a cidade de Santa Maria, em 2013, relembra e homenageia os 242 mortos no incêndio da Boate Kiss.

Segundo a descrição do livro, foram necessárias centenas de horas dos depoimentos de sobreviventes, familiares das vítimas, equipes de resgate e profissionais da área da saúde — ouvidos pela primeira vez neste livro —, para sentir e entender a verdadeira dimensão de uma tragédia sobre a qual já se pensava saber quase tudo. 

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