Ginecologista diz que abstinência sexual é pouco eficaz no combate à gravidez precoce

A campanha do Governo Federal que incentiva a abstinência sexual como forma de prevenir a gravidez na adolescência foi fortemente criticada

EDUCAÇÃO SEXUAL
Ginecologista diz que abstinência sexual é pouco eficaz no combate à gravidez precoce

A iniciativa foi duramente criticada por incentivar a abstinência sexual como forma de prevenção da gravidez precoce - Foto: Ana Nascimento/MDS/Portal Brasil

Com informações da Agência Brasil

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, lançaram nesta segunda-feira (3) a campanha "Tudo tem seu tempo", que visa educar jovens sobre sexo e gravidez na adolescência. A iniciativa foi duramente criticada por incentivar a abstinência sexual como forma de prevenção da gravidez precoce.

O ginecologista e especialista em reprodução humana Agostinho Machado acredita que discutir a gravidez na adolescência é importante, mas faz ressalvas quanto ao método. “Foi levantada a questão da abstinência [sexual]. Eu, particularmente, entendo que a abstinência é um método pouco eficaz, exige muita disciplina, nem todos os casais conseguem. Nós estamos falando de um público onde o interesse sexual está se despertando, várias descobertas. A chance de não haver uma disciplina a um método comportamental é muito grande”, avaliou.

Segundo ele, os países que tentaram a abstinência sexual como forma para diminuir a gravidez na adolescência não foram bem-sucedidos. “A maneira como isso deve ser tratado, o planejamento familiar, o uso dos métodos [contraceptivos], a questão da educação sexual, proteção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência é que exigem um escopo maior de debate”, disse.

De acordo com o ginecologista, não existe um consenso na medicina para o início da atividade sexual. “A sexualidade passa por um universo de fatores. Cada adolescente vai ter um contexto social, uma própria biografia, uma questão de abordagem desse assunto, de métodos contraceptivos, de proteção contra infecções sexualmente transmissíveis, da gravidez não planejada. Não existe esse momento ideal”, afirmou, lembrando que é importante não julgar ou descriminar os adolescentes interessados em tirar dúvidas sobre início da vida sexual.  

Lançamento da campanha 

Mais cedo, a ministra publicou no seu Twitter a foto de um outdoor da campanha instalado nos corredores da Câmara dos Deputados, e pediu a participação e o apoio das pessoas com o uso da hashtag #TudoTemSeuTempo nas redes sociais. 

“Estamos construindo um plano nacional de prevenção do sexo precoce. Essa ação é só o começo. Existem consequências graves, físicas e emocionais, para o sexo antes da hora. Vamos fazer cartilhas, vamos para as escolas mostrar arte, música. Vamos cuidar das ‘novinhas’, e não apenas chamá-las para o sexo”, afirmou a ministra Damares..

A ministra afirmou ainda que as ações contam com embasamento de estudos realizados por especialistas de diversas áreas e que são focadas nos melhores interesses dos jovens. “Os jovens e adolescentes são seres pensantes. Eles não são guiados apenas pelo instinto sexual. Acreditar nos jovens é essencial”, concluiu.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, destacou a relevância da ação. “Isso é elemento de discussão, sim. Nós precisamos olhar os números e saber as consequências. É papel de todos que têm uma responsabilidade com os jovens e adolescentes criar uma consciência. Estamos diminuindo os números [de gravidez indesejada] de 15 a 19 anos em 40%. Mas na faixa etária abaixo de 15 anos, de 2000 a 2016, o número da gravidez infantil permaneceu no mesmo patamar. Nada mudou”, argumentou. 

Sobre a orientação de abstinência, Mandetta afirmou que o assunto foi muito discutido internamente e que a orientação educativa para evitar a gravidez infantil deve ser o foco da ação do governo. “O que se diz para uma criança assim [abaixo de 12 anos] a não ser 'tudo tem seu tempo'? Não é idade de medicalizar, de interferir. A discussão é complexa”, concluiu.

De acordo com nota publicada pelo ministério, a medida é tida como política complementar e faz parte de um pacote de “medidas preventivas e educativas que contribuam para a redução da incidência da gravidez na adolescência”.

O programa faz parte da Semana Nacional de Prevenção à Gravidez Precoce, criada pelo presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2019. A mensagem estimula o adiamento de relações sexuais e orienta jovens a dialogar com a família e a procurar unidades de saúde antes de iniciar uma vida sexual ativa.

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