Mobilidade

Os desafios para quem usa o transporte público na pandemia do coronavírus


Usuários de ônibus reclamam da falta de segurança ao se expor a aglomerações; especialistas apontam caminhos para mobilidade em meio à pandemia

Priscila Miranda
Priscila Miranda
Publicado em 29/07/2020 às 15:07
Bruno Campos / JC Imagem
FOTO: Bruno Campos / JC Imagem
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Distanciamento social. Em uma realidade onde ainda não há vacinas nem remédios aprovados cientificamente contra o novo coronavírus, manter o afastamento entre as pessoas é a principal recomendação das autoridades em saúde. A medida é eficaz. Tanto que é o primeiro item da lista de protocolos para retomada gradual das atividades econômicas em Pernambuco.

Na fase atual, em bares e restaurantes, as mesas precisam estar, pelo menos, a um metro e meio umas das outras. As academias de ginástica podem ter um aluno a cada dez metros quadrados.

No comércio, as lojas podem receber um cliente para cada vinte metros de área. Mas é nos trajetos feitos de ônibus e metrô, diariamente, que a pandemia mostra um dos seus lados mais cruéis, deixando a população bastante vulnerável. Como manter o distanciamento social, em longos percursos, dentro de espaços limitados, quando não se tem escolha?

A operadora de caixa Vânia Cavalcanti, 38 anos, diz que isso não é possível. Ela mora no bairro de Rio Doce, em Olinda, e trabalha em um supermercado em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife. Todos os dias, utiliza ônibus e metrô no deslocamento entre os dois pontos.

“Eu saio de casa às 4h da manhã para ir trabalhar e o ônibus vai razoavelmente vazio. Mas já era assim antes da pandemia. Porém, quando eu volto pra casa, já vem lotado. Além dos assentos totalmente ocupados, vem bastante gente em pé. Então, é impossível manter o distanciamento.”

Já a assistente de departamento pessoal Midian Mendes, de 29, pega quatro ônibus por dia para ir e voltar do trabalho. Segundo ela, os dois itinerários são marcados por aglomerações.

“As linhas [de ônibus] que eu pego sempre vêm cheias. Não existe nenhum horário que o ônibus venha vago. Principalmente os da linha do [Terminal] Xambá. Não existe essa possibilidade de vir dentro do ônibus fazendo esse distanciamento.”

Tanto Vânia quanto Midian dizem que o temor maior na utilização do transporte coletivo é de levarem o novo coronavírus para casa. “A gente fica realmente assustada. Eu, particularmente, sinto bastante medo. Com certeza o risco de levar [o vírus] para casa é enorme”, afirmou Vânia.

“Segura não tem como eu me sentir de forma nenhuma. Até porque os ônibus diminuíram a quantidade de rotas e aumentou o fluxo de pessoas dentro do transporte coletivo. E eu tenho medo de me contaminar e passar para as pessoas que moram comigo. Meu maior medo é esse”, completou Midian.

Para as duas usuárias, o transporte público não é uma opção. É uma imposição da necessidade de se deslocar, na falta de outro meio de locomoção.

“Se eu tivesse outro meio de transporte, não utilizaria o transporte coletivo. Eu pretendo, sim, adquirir um carro num futuro próximo porque está se tornando insustentável a utilização do serviço público. Além de a gente estar exposta ao contágio, o serviço é de péssima qualidade”, disse Vânia.

“Se houvesse outro meio de transporte, com certeza eu não utilizaria mais o público, porque é muito precário. Eles não têm zelo pela população. A gente é transportado de qualquer jeito e não tem sido feito as observações de segurança que foi estabelecida”, afirmou Midian.

Antes da pandemia, havia uma tendência mundial de estimular as pessoas a utilizarem transportes coletivos, em vez de veículos próprios. Um dos principais benefícios dessa orientação seria a maior fluidez no trânsito das grandes cidades. Mas parece que a covid-19 frustrou essa ideia. A doutora em engenharia civil Jocilene Costa considera que o cenário pós-pandêmico vai ser de muitos desafios para o transporte público.

“Já foi divulgado, por diversos estudos, que o transporte coletivo, a nível de contaminação, só perde para um hospital. Então, as pessoas que necessariamente precisam sair de casa vão ter a tendência de usar o seu veículo próprio. No efeito pós-pandemia, as pessoas vão estar acostumadas a usar o seu próprio veículo, então vai ter que ter um engajamento muito maior por política de atração de utilização do transporte público para poder fazer com que essas pessoas que estão voltando para o seu carro próprio hoje retorne para o transporte coletivo.”

Para o engenheiro civil, doutor em transportes e ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, Anísio Brasileiro, é fundamental a tomada de providências que promovam a segurança da população no uso do transporte público e recuperem a confiança no sistema.

“O grande esforço que nós temos que fazer, agora, é retomar essa confiança, combinando o transporte por ônibus, o transporte por metrô, por trem, e também a políticas voltadas para ciclovias, para que a população possa ter a opção de utilizar o transporte público com segurança. Para isso, é preciso mais veículos, faixas exclusivas para que a velocidade dos ônibus aumente.”

A professora Jocilene Costa afirma que uma das dificuldades para ampliar a oferta de transporte durante a pandemia se deve ao afastamento de trabalhadores dos setores metroviário e rodoviário. Ela destaca, por exemplo, que cerca de 50% dos funcionários do Metrô do Recife estão sem trabalhar, por se enquadrarem no grupo de risco para a covid-19.

Segundo ela, a capacitação de profissionais substitutos levaria, pelo menos seis meses. Esse é mais um fato que demonstra o quanto a pandemia é desafiadora para a humanidade. São muitas questões sem respostas satisfatórias. Mas fica a reflexão de que não investir o suficiente em transporte coletivo pode significar ter que investir ainda mais em saúde pública.

Ouça a reportagem de Betânia Ribeiro:


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