PANDEMIA

Infectologista alerta que variante do coronavírus mais temível não é a indiana, mas a inglesa; saiba tudo sobre ela


Chegada de variante indiana tem preocupado população brasileira, mas infectologista mostra preocupação com cepa inglesa

Ísis Lima
Ísis Lima
Publicado em 24/05/2021 às 12:05
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A infectologista Vera Magalhães demonstrou preocupação diante do ritmo lento de vacinação no Brasil e a normalidade com que a população e os governos estão lidando com o avanço da covid-19 no país. Segundo a especialista, apesar do medo gerado pela confirmação da chegada da cepa indiana em território brasileiro, a variante do novo coronavírus mais temível é a inglesa.

Vacinação lenta

A infectologista explica que já era esperado que pessoas vacinadas poderiam ter covid-19 de forma grave, já que nenhuma vacina é 100% eficaz. No entanto, aponta que o problema está na falta de imunizantes. "O que está existindo é a falta de vacinação com a rapidez necessária e a amplitude necessária. A gente só teria uma tranquilidade quando 70% a 80% da população estiver vacinada. Enquanto isso, nós estamos com a vacinação lenta, apenas três vacinas, em pequena quantidade, faltando insumo e uma grande circulação viral. Nós estamos em plena expansão de infecções. Existem pessoas aguardando leitos na UTI. Nós estamos num patamar muito elevado de transmissão viral. A gente sabe que a eficácia da CoronaVac e Astazeneca era em torno de 60% a 70%. É lógico que muita gente contaminada, muita transmissão, vai haver pessoas que vão agravar e ir para a UTI”, disse.

Turismo de vacina

Doutora Vera Magalhães também opina sobre o crescimento da procura da vacinação fora do país. Questionada sobre pessoas que estariam recebendo o imunizante no Brasil e viajando para fora do país para reforçar a vacinação com outro imunizante, ela avalia a atitude como injusta. “Prejudicial [à saúde] eu acho que não é, mas eu acho injusto. Estamos passando por uma crise moral e ética, além de política e econômica. O Brasil teve todas as condições de conseguir essa vacina para que a população toda fosse vacinada, principalmente respeitando os grupos prioritários que são aqueles que estão em maior vulnerabilidade de complicar a covid. Enquanto isso, vai sobrar [vacinas] para as pessoas de alto poder aquisitivo, que podem ir para os Estados Unidos se vacinar. Eu não acho que a pessoa deva deixar de ir, mas eu não acho correto que o Brasil, enquanto governo, não tenha disponibilizado a vacina para realmente quem precisa”, criticou.

Cepa inglesa

A variante inglesa, conhecida como linhagem B.1.1.7., foi identificada em dezembro de 2020 por autoridades sanitárias do Reino Unido.

“A [cepa] indiana chegou, mas a mais temível é a inglesa. Além de ter uma maior transmissibilidade, ela tem uma maior virulência, causando casos mais graves", alertou Vera Magalhães.

Segundo a infectologista, mesmo que a eficácia das vacinas contra a covid-19 seja reduzida na proteção contra as variantes, elas ainda têm capacidade de proteger. "As vacinas atuais podem baixar um pouco a eficácia, mas elas têm capacidade de proteger. Mas pode ser que daqui a algum tempo isso não ocorra. Por isso que a gente tem que tomar uma atitude rápida (...) A gente não pode negar o problema. Se a gente negar, nunca vamos achar uma solução”, afirmou.

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"Ninguém quer alarmar nada"

Vera Magalhães também afirmou que não há alarmismo sobre a informação da chegada de uma terceira onda da covid-19 no Brasil. “Não tem alarmismo nenhum. Nós já estamos com 450 mil pessoas mortas. Isso representa muito. A gente não pode menosprezar, dizer que isso não é nada demais. Ninguém quer alarmar nada, a gente está baseado em opinião técnica e científica. Estamos muito preocupados. Existe um estudo recente que mostra que se continuar com esse ritmo de vacinação no Brasil, nós teremos 750 mil mortos até agosto. Isso é muito trágico", apontou.

Segundo a especialista, as imagens da Índia "são muito tristes, mas nós tivemos essas imagens no Brasil também". "Houve falta de oxigênio, ainda há falta de leito (...) A gente vai experimentar, infelizmente, isso [a terceira onda] tendo solução. E a solução todos já conhecem: vacinação e restrição social. Enquanto não atingirmos um patamar de pessoas vacinadas acima de 70% a 80% precisamos de lockdown e restrição social. As pessoas não podem se expor a um risco como estão se expondo”, reforçou.

A infectologista ainda acredita que o país acumulou as ondas de infecções da covid-19. “Na minha opinião, ainda não saímos da primeira, porque não tivemos uma redução que caracterizasse o controle da primeira onda e nem da segunda. A gente está acumulando a primeira onda com a segunda e a terceira. Está sempre um patamar elevadíssimo. Estamos hoje com 2 mil mortes diárias no Brasil. É um patamar muito elevado (...) Está se passando uma ideia de normalidade. Isso não é normal. A gente precisa ainda de medidas restritivas e acelerar a vacinação”, disse a especialista, criticando a postura da população e dos governos - federal, estaduais e municipais.


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