PANDEMIA

Variante indiana: “não tenho nem palavras”, desabafa especialista sobre falhas de vigilância na chegada de voos ao Brasil


Paciente infectado com a variante indiana desembarcou em São Paulo e fez, por conta própria, um teste que confirmou a infecção

Ísis Lima
Ísis Lima
Publicado em 27/05/2021 às 11:46
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A epidemiologista da Universidade Federal do Espírito Santo Ethel Maciel alerta que a situação da ocupação dos leitos de UTI é apenas a ponta do iceberg da covid-19 no Brasil. A especialista também se preocupa com a circulação variante indiana, identificada como B.1.617.2, no país e da P4, que foi identificada em São Paulo. Em entrevista ao Passando a Limpo, nesta quinta-feira (27), ela ainda desabafou sobre a falta de vigilância sanitária na chegada de voos no Brasil.

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“Nós já estamos vendo alguns estados com um aumento expressivo de casos, já com uma pressão grande nos leitos. A ponta do iceberg são os leitos de UTI. Quando nós temos os leitos muito ocupados significa que temos muitas pessoas infectadas, inclusive aquelas que o serviço de saúde ainda nem diagnosticou. Nós temos muito casos subnotificados. É o grande problema no Brasil, porque a gente faz poucos testes, a gente só está fazendo os testes das pessoas que vão ao serviço de saúde porque estão sentindo alguma coisa. Nós não fazemos testes em massa para pegar pessoas que nem estão sentindo nada, mas que estão infectando outras”, comentou.

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Ethel Maciel alerta que a próxima semana deve registrar um percentual maior de pessoas precisando de leitos de UTI.
“Estamos observando, nos últimos dias, mais de 70 mil casos por dia no Brasil (...) Está chegando a mais de 80 mil. É muito preocupante. Isso significa que vamos ter muitas pessoas doentes na próxima semana e um percentual importante que vai precisar de leitos de UTI”, afirmou.

Falha na vigilância

A epidemiologista aponta que a chegada da variante indiana no Brasil já era esperada. Mas, mesmo assim, o Governo Federal, que é responsável pelo controle dos aeroportos e portos, não fez nada.

“A gente já antecipava que isso fosse acontecer porque é a lógica. Foi assim que aconteceu com a variante do Reino Unido. A gente já sabia que a variante ia chegar e o Brasil não fez nada. Nós ficamos esperando a variante se espalhar, causar muitos casos graves e mortes. E, agora, a mesma coisa. Mais de um mês e meio nós já sabíamos dessa variante que havia sido identificada na Índia, a maioria dos países fez a barreira sanitária, fez o que precisa ser feito: controle dos aeroportos. Nós, brasileiros, se formos entrar em algum país na Europa ou nos Estados Unidos temos que cumprir quarentena, temos uma série de rigorosas medidas para impedir a nossa entrada ou para que os países se certifiquem de que nós não estamos levando as nossas variantes para outros países. Não vemos a mesma coisa aqui no Brasil”, explicou.

Doutora Ethel Maciel comenta que o "Governo de São Paulo teve que pedir ao Governo Federal que colocasse alguma medida", o que só foi adotado esta semana, após mais de um mês.

Mesmo assim, não foi suficiente para impedir a chegada de um passageiro infectado pela variante indiana, conforme detalha a epidemiologista. “A pessoa chegou desse voo vindo da Índia, tinha um teste de PCR com 72 horas negativo, que é o teste exigido pelo Brasil. Ele já saiu do voo passando mal, resolveu procurar no aeroporto se tinha algum lugar para testar e fez um teste porque ele procurou. É isso que eu acho muito... Não tenho nem palavras para dizer”, desabafou a especialista.

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A especialista ainda destaca que, mesmo fazendo o teste, o paciente não foi colocado em isolamento. "Na segunda-feira, quando saiu o resultado, é que foi dado o alerta para as pessoas que estavam no mesmo voo que ele e à Anvisa. Ou seja, se ele não tivesse parado lá [para fazer um novo teste] a gente nem saberia. É muito grave essa falha que nós tivemos. Muito provavelmente a variante já está circulando junto com a P4", disse, explica que essa última variante foi identificada em São Paulo.

Ela ainda critica a falta de vigilância genômica, que é responsável por identificar as variantes do novo coronavírus. “É muito difícil que a gente não esteja com essas variantes se espalhando. O que nos falta agora é ter essa vigilância genômica, fazer mais testes que a gente chama de sequenciamento genético do vírus, para saber exatamente por qual variante a pessoa ficou doente. E a gente faz poucos testes desse aqui no Brasil", comentou.

Paciente infectado

O Instituto Adolfo Lutz identificou um caso da variante indiana, identificada como B.1.617.2, nesta quarta-feira (26). O caso foi identificado em um morador de 32 anos da cidade de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, que viajou para a Índia e desembarcou no aeroporto de Guarulhos no dia 22 de maio.

Esse passageiro circulou pelo aeroporto de Guarulhos, fez um exame RT-PCR para a detecção do novo coronavírus e, antes de obter o resultado, embarcou para o Rio de Janeiro. De lá, seguiu para Campos dos Goytcazes.

As autoridades sanitárias do Rio de Janeiro informaram que estão monitorando todas os moradores do estado que tiveram contato com o paciente infectado com a variante indiana do novo coronavírus. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, essas pessoas foram orientadas a fazer isolamento e a contactar as autoridades sanitárias se sentirem qualquer sintoma de covid-19.

Até o momento, não foi notificado nenhum caso entre essas outras pessoas. Já o paciente infectado com a variante indiana está neste momento na cidade do Rio de Janeiro, em isolamento, sendo acompanhado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Segundo o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, 29 pessoas que tiveram contato com ele e estão na cidade do Rio foram testadas para covid-19 e estão sendo rastreadas pela vigilância epidemiológica.


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