Transfobia em Pernambuco

Internautas cobram posicionamento de Paulo Câmara sobre mortes de mulheres trans em Pernambuco


Em um mês, três mulheres trans foram brutalmente assassinadas em Pernambuco. Além delas, outra vítima teve 40% do corpo queimado e está internada em estado grave; Paulo Câmara ainda não se pronunciou

Atualizada às 17h29
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Publicado em 07/07/2021 às 12:09
Reprodução/TV Jornal
FOTO: Reprodução/TV Jornal
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As últimas semanas têm sido sangrentas para a comunidade LGBTQIA+ em Pernambuco. Em menos de um mês, três mulheres trans foram mortas no Estado. Além das vítimas fatais, outra transexual teve 40% do corpo queimado, dois braços amputados e está internada em estado grave. Apesar disso tudo, o governador Paulo Câmara (PSB) faz silêncio e ainda não se manifestou publicamente sobre os crimes bárbaros.

Nas redes sociais oficiais do governador, internautas têm cobrado, nos comentários, um posicionamento do chefe do Executivo estadual. “Estão matando a população trans e travesti no seu estado, viu, governador? O seu [senhor] tá se fazendo de cego ou realmente não tem empatia?”, perguntou uma seguidora no Instagram de Paulo Câmara. Outra mulher questionou: “Sim, mas um posicionamento sobre os assassinatos de trans aqui no Recife? Nenhuma política pública voltada para a comunidade LGBTQIA+?”.

Em outra postagem, seguidores pressionaram o governador. “Mais uma travesti assassinada????”, escreveu um rapaz. Logo abaixo, é possível ler o comentário de outro seguidor que disse: “Mais uma travesti foi morta em Recife, isso não pode continuar, tem que haver medidas mais rigorosas para evitar esse tipo de coisa. Está passando dos limites”.

Primeira parlamentar do Estado a chamar atenção para o caso de Roberta Silva, mulher trans queimada viva no Recife, a codeputada estadual Robeyoncé Lima (Juntas/Psol) também tem cobrado reuniões com o governador para discutir o tema. “O movimento trans e travesti não quer falar com intermediários! @PauloCamara40 tem que receber pessoalmente quem tem o corpo mais vulnerável no Estado!”, escreveu a parlamentar no Twitter, na terça-feira (6).

Nesta quarta-feira (7), após saber da morte de mais uma mulher trans, esfaqueada em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste, Robeyoncé voltou a tuitar. “Não são casos isolados, é um projeto de extermínio da população trans e travesti. Se @PauloCamara40 não se responsabilizar por isso estará sendo conivente com esses assassinatos!”. Em seguida, escreveu: “Queremos que @PauloCamara40 imediatamente se coloque para atender ao movimento trans e travesti!”.

A reportagem do site da Rádio Jornal procurou a Secretaria de Imprensa do Governo de Pernambuco para saber se o governo gostaria de emitir algum comunicado sobre o assunto. A pasta informou, contudo, que os casos estão sendo tratados pela Secretaria da Mulher de Pernambuco, que fala em nome do governo estadual.

Procurada, a Secretaria da Mulher ainda não respondeu nossos questionamentos até a última atualização desta reportagem. Tão logo a Secretaria da Mulher envie as respostas, nós atualizaremos este texto.

Antes disso, no dia 26 de junho, dois dias após o ataque contra a mulher trans que teve 40% do corpo queimado, o governo de Pernambuco havia se pronunciado por meio de nota enviada pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco. Na nota enviada à imprensa, a pasta disse que estava em articulação com várias outras secretarias e entidades, a fim de “realizar um atendimento conjunto com a vítima e seus familiares, com o objetivo de garantir seus direitos”. O governador, no entanto, nunca falou pessoalmente sobre o assunto.

João Campos se pronunciou

Um dia após o ataque contra Roberta, no Cais de Santa Rita, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), falou sobre o assunto. No Twitter, ele disse que a tentativa de homicídio contra Roberta era “intolerável”. “O que aconteceu é intolerável, atinge a todos e todas nós, comprometidos com a causa dos direitos humanos e do enfrentamento à qualquer tipo de violência e preconceito. Determinei à nossa Sec. Desenv. Social que seja feito o acompanhamento e dada a assistência necessária à mulher trans vítima de queimaduras, na última madrugada, no Cais de Santa Rita”.

Relembre os casos

Em junho, Kalyndra Nogueira da Hora foi encontrada morta dentro de casa, no bairro do Ipsep, zona sul do Recife. O principal suspeito é o companheiro da vítima.

Na madrugada do dia 24 de junho, Roberta Silva foi queimada viva nas proximidades do Cais de Santa Rita, centro do Recife. Ela teve 40% do corpo queimado, dois braços amputados e está internada em estado grave. Um adolescente de 17 anos foi apreendido suspeito de cometer a agressão. Em conversa com a codepuatada estadual Robeyoncé Lima, Roberta disse que a agressão foi cometida por discriminação.

Na última segunda-feira (5), a cabeleireira Crismilly Pérola Bombom, de 37 anos, foi encontrada morta em uma rua do bairro da Várzea, zona oeste do Recife, com um tiro na nuca. A família acredita que a morte de Pérola tenha sido motivada por preconceito. Ninguém foi preso. Um mês antes de ser morta, a vítima já havia ficado ferida em um outro ataque transfóbico.

Por fim, na madrugada desta quarta-feira (7), Fabiana da Silva Lucas, de 30 anos, foi esfaqueada várias vezes em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste de Pernambuco. Um suspeito de 22 anos foi linchado pela população e está internado no Hospital da Restauração, no Recife, sob escolta da polícia.

Secretaria da Mulher de Pernambuco se pronuncia

Por meio de nota, a Secretaria da Mulher de Pernambuco informou que desde o caso de Roberta Silva a pasta "instituiu o Comitê de Prevenção e Enfrentamento da Violência LGBTFóbica para estruturar as ações de enfrentamento a essa violência". Além disso, a secretária Ana Elisa Sobreira estaria "acompanhando pessoalmente os casos das trans Kalindra (Recife), Roberta (Recife), Pérola (Recife) e Fabiana (Santa Cruz do Capibaribe).

Veja a nota completa:

"A Secretaria da Mulher de Pernambuco (SecMulher-PE) desenvolve um trabalho de acompanhamento e prevenção dos crimes cometidos contra as mulheres, por meio da Câmara Técnica para o Enfrentamento da Violência de Gênero - do Pacto pela Vida. Desde o último dia 24 de junho, quando a trans Roberta, 33 anos, teve 40% do corpo queimado, crime que chocou a sociedade pelo requinte de crueldade do acusado, a SecMulher-PE, instituiu o Comitê de Prevenção e Enfrentamento da Violência LGBTFóbica para estruturar as ações de enfrentamento a essa violência.

As instituições que compõem o comitê estão trabalhando de forma integrada para capacitar, assessorar, mobilizar e criar ações, em articulação com os municípios, oferecendo prevenção, acolhimento às vitimas e punição aos agressores. O comitê conta com as secretarias estaduais da Mulher; Desenvolvimento Social, Criança e Juventude; Saúde; e Educação e Esportes; Coordenadoria LGBT de Pernambuco; Secretaria da Mulher do Recife; Centro de Referência Clarice Lispector; Saúde da População LGBT de Jaboatão; SDS – GT Racismo da Polícia Civil; Centro Municipal de Referência em Cidadania LGBT; Gerencia da Livre Orientação Sexual; Centro de Combate a Homofobia; Secretaria de Saúde do Recife; Coordenação Estadual de Saúde LGBT, entre outros órgãos. A Rede de Enfrentamento da Violência contra as Mulheres do Estado de Pernambuco, atualmente com 597 equipamentos, dará reforço ao comitê.

Outra iniciativa da SecMulher-PE para o enfrentamento da violência LGBTFóbica será uma capacitação, no próximo dia 13 de julho, com a equipe de teleatendentes da Ouvidoria da Mulher de Pernambuco (0800-281-81-87), 12 coordenadoras regionais da SecMuher-PE, servidoras e servidores e as coordenadorias e secretarias dos municípios, com o tema “Dialogando o Enfrentamento à Lesbofobia, Bifobia e Transfobia”. A capacitação antecede uma campanha que será lançada este mês, com cartazes afixados nos ônibus, metrôs, equipamentos públicos e demais locais de acesso à população da Região Metropolitana do Recife e do interior de Pernambuco.

A secretária da Mulher de Pernambuco, Ana Elisa Sobreira, ressalta que vem acompanhando pessoalmente os casos das trans Kalindra (Recife), Roberta (Recife), Pérola (Recife) e Fabiana (Santa Cruz do Capibaribe), e que esse conjunto de ações será praticado de forma efetiva e permanente até que nenhuma mulher sofra violência ou seja morta pela sua condição de gênero ou orientação sexual."


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