Celebridades

Marieta Severo fala como conheceu Chico Buarque e quais drogas usou durante a vida


Marieta Severo é uma das maiores atrizes do país e foi casada por 33 anos com o cantor Chico Buarque

Gabriel dos Santos Araujo Dias
Gabriel dos Santos Araujo Dias
Publicado em 09/10/2021 às 15:22
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Em 2004, cinco anos após terminar seu relacionamento com o cantor Chico Buarque, a atriz Marieta Severo deu uma entrevista exclusiva à repórter Milly Lacombe da revista Trip, na qual fez revelações detalhadas sobre sua vida pessoal. Nascida em uma família de classe média, sempre viveu no Rio de Janeiro, onde adorava jogar frescobol na praia. Foi em 1966, ao participar de uma peça de teatro, que conheceu Chico, com quem se relacionou durante 33 anos, até 1999. Na entrevista, ela falou sobre o relacionamento com um dos cantores mais famosos do país e sobre drogas. (Clique aqui e veja o que Marieta fala sobre Carlinhos Brown).

Confira trechos da entrevista:

Revista Trip: Você se casou cedo, não foi?

Marieta Severo: Aos 18 anos, com o Carlos Vergara, que é artista plástico. Mas foi um fracasso, o casamento durou um ano... Não, brincadeira, não foi um fracasso. É que eu era menina, não era para ter casado, né?

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Trip: E o Chico entrou no filme quando?

M: Em 66, quando estava fazendo minha terceira peça. Ele tinha ido ao Rio para apresentar o primeiro show dele na cidade. Daí o Hugo Carvana, que era o diretor desse show, levou o Chico para ver a minha peça. Eu já tinha ouvido falar desse novo músico de São Paulo, sabia que ele já tinha até feito um disquinho e tal. O Hugo nos apresentou e cada um foi para o seu lado. Dias depois, o Chico voltou com flores. Daí a gente começou a sair e, pouco tempo depois, estávamos morando juntos.

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Chico Buarque e Marieta Severo com filha
Chico Buarque e Marieta Severo com filha
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Trip: Você era politicamente engajada?

M: O jovem na década de 60 fazia parte de uma geração completamente comprometida com mudanças sociais. Não só no Brasil, mas na França, na Itália. Tudo caminhava para transformações. O pensamento era de que tudo tinha de ser experimental: a escola, o casamento. Havia uma grande necessidade de ruptura. Veja o feminismo: até a geração da minha mãe, o bastão ia passando de mulher para mulher, absolutamente igual. A maneira de educar o filho, de se comportar dentro do casamento. Mas minha geração falou: “Queremos tudo diferente, queremos outro formato para o casamento, para a educação, queremos uma outra vida social”. Semana passada estava ouvindo Mercedes Sosa, e tinha uma música de ninar no CD que me fez dar muita risada. Era assim: “Dorme negrito que tu mamá está en el campo/que tu mamá está en el campo”. E, nessa hora, a cantiga sai e entra uma voz forte: “Trabajando, trabajando!!”[risos]. A mensagem social era encaixada onde desse, entendeu?

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Trip: Mas o mundo não só não mudou como ficou mais careta...

M: Bom, depois que você saca que não pode mudar o mundo todo, acaba restringindo um pouco [risos]. Mas não importa, o que é maravilhoso é que esse ímpeto seja estimulado no jovem porque é nessa época que você tem que acreditar que pode mudar o mundo. Fazer parte de uma geração como a que veio com a ditadura, que não tinha a oportunidade de canalizar esse ímpeto que é inerente ao jovem, é muito triste. Aí começam as drogas sem a intenção de experimentação, aí começa essa força que vai sendo mal canalizada...

Trip: Mas era só engajamento? Porque viver só disso deve ser um porre.

M: [Risos.] Claro que não era só isso. A gente cantava, jogava frescobol, ria muito. Antes da ditadura, era efervescência pura. Em 68, a cortina caiu e me lembro de pensar: “Caramba, minha juventude está indo embora numa ditadura. E isso ninguém vai me dar de volta”.

Chico Buarque e Marieta Severo com filhas
Chico Buarque e Marieta Severo com filhas
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Trip:Você era um núcleo meio careta dentro disso, né?

M: Era bastante. Porque tive filho muito cedo. Engravidei da Silvinha com 21. Sempre tive muita vontade de ser mãe. Então, com 24 eu já tinha duas filhas. Com 27, três. Não era uma jovem solta que ficava lá no píer vendo o sol se pôr. Nunca fui ver o sol se pôr em Ipanema. Porque a essa hora provavelmente estava amamentando, trocando fralda, fazendo uma peça [risos].

Trip: Mas você também se permitiu experimentar, não?

M: Não vou dizer que nunca fumei maconha ou tomei ácido. Era impossível ir a um lugar e não ter um fumo passando. E o ácido tinha um sentido de pesquisa, de se conhecer melhor. Só que nada disso tinha a conotação que tem hoje. Hoje isso está ligado à violência, ao abuso, ao dinheiro sujo. Antes, fazia parte de uma certa poesia que tinha esse movimento de ruptura. Mas para mim o principal era criar minhas filhas. Então, não havia tempo para pirar. Eu pensava: “Piro ou não piro?”. E a resposta era sempre: “E se não der conta? Não posso, tem criança em casa me esperando para comer”.

Separação de Chico Buarque

Trip: Como é existir socialmente sozinha depois de 30 anos sendo uma dupla?

M: Não contava com essa dificuldade quando me separei. Era muito difícil para as pessoas me verem sozinha. A gente foi um casal público durante 30 anos. Era sempre Chico e Marieta. As pessoas não sabiam como lidar comigo sozinha. Talvez também não soubesse chegar, era complicado. Ficava horas conversando com as mulheres com medo de que elas achassem que estava querendo alguma coisa com os maridos delas. Uma paranóia.

Atriz entrega dificuldade nas gravações da novela Um Lugar ao Sol após ter coronavírus
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Globo/João Miguel Júnior

Trip: O fato de você e Chico terem continuado amigos ajudou?

M: A gente soube viver isso de uma maneira que me deixa muito feliz e a ele também, e às nossas filhas. Vejo casais que se separam e não se falam mais e fico chocada porque aquela é a pessoa que você escolheu para dividir tua vida. O Chico é meu melhor amigo, a primeira pessoa com quem vou falar numa situação difícil.

Trip: Passada a turbulência, que tal estar em vôo solo?

M: Não é melhor nem pior, é outra história. Acredito muito nos roteiros da vida. Então, de repente, você se redescobrir sozinha, sem nenhuma dessas referências, sem nenhum desses espelhos, e mudar, aprender a ser de um outro jeito, é muito bacana.

Trip: E essa bolha dentro da qual você conseguiu manter suas vida privada? Foi planejado?

M: Sempre achei que é melhor separar vida privada da pública. As pessoas se alimentam de aparência, de uma foto, de uma capa, de um convite para uma festa badalada. Todos os momentos da vida parecem ser compartilhados com o público. Não tenho necessidade disso. Mas não tenho nada contra quem gosta.

Trip: Sua vida sempre foi comum?

M: Comunérrima. Não tem glamour nenhum. É dor de dente, briga com as crianças que deixaram tudo fora do lugar, com quem não fez a lição, é muito normal. Eu saía de casa para ir trabalhar, deixava as crianças com a babá e tinha culpa sim. Como qualquer outra mulher. Ah, o glamour! A gente na banheira, com rosas em volta... Que banheira?! Não dá tempo nem de tomar banho direito [risos].

Trip: Você era o tipo de mãe que conversava com as filhas sobre drogas e sexo?

M: Ah, se falava de tudo lá em casa. Mas a criança vive do que ela capta no ambiente dela. Não adianta fazer discurso se isso não corresponde à realidade. Como o jantar em família dependia de minhas peças, fazia questão de que almoçássemos sempre juntos. E era nessa hora que se falava abertamente. O segredo era responder às perguntas delas com sinceridade e simplicidade, e a gente percebeu isso rápido.


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