DIA DO LIVRO

DIA MUNDIAL DO LIVRO: jovens escritores contam como veem a literatura no Brasil

Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor é celebrado neste sábado (23)

Paloma Xavier
Paloma Xavier
Publicado em 23/04/2022 às 12:07 | Atualizado em 23/04/2022 às 17:49
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Data tem como intuito conscientizar as pessoas sobre os prazeres da leitura - FOTO: PEXELS
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No dia 23 de abril é celebrado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. A data tem como objetivo homenagear obras literárias e seus autores, além de conscientizar as pessoas sobre os prazeres da leitura.

O gosto pela leitura pode começar durante a infância e adolescência, com obras como Turma da Mônica, e estimular o desenvolvimento do hábito e até a tomada de grandes decisões durante a vida, como no caso do estudante de Publicidade e Propaganda Igor Sotero.

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O escritor pernambucano de 24 anos começou a gostar de ler ainda pequeno. “Eu era viciado em livros desde pequeno, era um rato de biblioteca, mas como morava no interior, o acesso aos livros era apenas com o que tinha na escola”, conta.

“Minha primeira lembrança com livros foi com as historinhas de gibi da Turma da Mônica e os quadrinhos da Disney, eu era fissurado e lia vários por dia”, relata Igor. Assim como ele, muitas crianças passaram a gostar de ler graças às histórias em quadrinhos criadas por Maurício de Sousa.

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Divulgação Mauricio de Sousa Produções
Os gibis da Turma da Mônica estão na memória afetiva de muitos leitores brasileiros - Divulgação Mauricio de Sousa Produções

Igor deixou um pouco de lado as leituras ao entrar no Ensino Médio. Ele conta que foi uma fase na qual ele acabou fugindo dos paradidáticos, mas depois retomou o hábito da leitura.

“Durante a escola eu não lia muito os livros paradidáticos, sempre fugia dos grandes clássicos e só lia resumos ou tentava ver os filmes deles. Mas acabei me apaixonando por muitos dos livros que fugi. Acabei me achando muito neles mais tarde”, diz.

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'Um Natal Cadavérico' e 'Presos na Eternidade', contos escritos por Igor, chegaram a liderar a categoria Mistério e Ficção Científica, respectivamente, na plataforma de autopublicação da Amazon - ARQUIVO PESSOAL

A paixão dele pela leitura o ajudou a decidir que rumo profissional tomar. Igor abandonou o curso de engenharia por não se identificar com a área. “Queria algo na profissão que pudesse usar muito da criatividade, acreditei que Publicidade e Propaganda pudesse ser o caminho. Pensei muito em fazer Letras, mas fiquei com muito medo de me limitar”, explica.

“Me contaram que Comunicação era uma área bem ampla e que você poderia transitar por todas as áreas, o que é verdade. Paguei muitas cadeiras de Roteiro e sempre foquei muito na interdisciplinaridade entre as duas áreas [Publicidade e Cinema]. Acho que no fim eu só queria contar histórias e estava meio perdido. Mas é certo que os livros me levaram a sonhar que um dia eu poderia contar muitas histórias também”, relata o jovem.

Em um determinado momento, Igor não pôde mais ignorar sua vontade de escrever. O estudante se jogou no mundo da escrita e lançou dois contos independentes na plataforma de auto publicação da Amazon. Agora, ele está prestes a publicar o seu primeiro romance.

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“Meu objetivo seria viver podendo escrever histórias. Queria muito focar nos meus livros, mas acho que o mercado hoje está mais realista para quem quer ser roteirista. Minha prioridade é conseguir entrar nesse mercado, mas ir publicando meus livros também”, conta o jovem. Ele também lamenta o fato dos escritores não serem tão valorizados.

Igor acredita que a grande questão para os escritores no país atualmente é “o monopólio das empresas de papel, e a falta de incentivos públicos, sobretudo em nível federal, para tentar deixar mais acessível o consumo de livros entre as classes que mais precisam da educação para a ascensão social.”

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Apesar do acesso aos livros não ser universal, a quantidade de livros vendidos no Brasil não caiu. Entre os dias 6 de dezembro de 2021 e 2 de janeiro de 2022, foram vendidos 5,4 milhões de livros, quase 5% a mais do que no mesmo período de 2020, segundo levantamento do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), a partir de pesquisa feita pela Nielsen BookScan.

Os números mostram que o desenvolvimento tecnológico e o consumo massivo de séries e filmes em plataformas de streaming não está inibindo o hábito de leitura, como acreditam algumas pessoas.

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A estudante de Letras e escritora Rafaela Maria, de 22 anos, reforça que o problema é que a literatura é elitista. “Não é que as pessoas não estejam procurando literatura, a literatura é elitista para caramba. A grande questão é que a literatura sempre foi para a burguesia, e ela continua sendo para a classe média”, afirma.

“A literatura é muito cara [no Brasil]. Um livro custa em média R$ 50. E isso, muitas vezes, por falta do incentivo do governo, que ainda acredita que a leitura é algo que só pode ser destinado a quem tem dinheiro”, destaca.

Rafaela lembra a taxação de livros proposta pelo governo Bolsonaro na reforma tributária em 2021. Depois da repercussão da medida, a ideia ficou de lado e os livros seguem isentos da cobrança de impostos e tributos.

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Rafaela escreve para a revista baiana Rolezinho - ARQUIVO PESSOAL


A jovem também comenta que os filmes e séries podem, na verdade, incentivar a leitura, já que muitos são baseados em obras literárias: “Eu não acredito que o desenvolvimento da tecnologia tenha de alguma forma atrasado a literatura. Eu acho que, com o avanço da tecnologia, a literatura precisa mudar sua face e acompanhar ela.”

Rafaela tenta aliar a tecnologia à sua paixão pela literatura. Ela criou um perfil literário no Instagram e um canal no Youtube para compartilhar conteúdos da área, inclusive dicas.

Mas a tecnologia não estava tão ao seu favor e, ao perceber que seu conteúdo não estava sendo “entregue” por causa dos algoritmos - além de ter uma rotina corrida -, a estudante de letras repensou sua forma de produção.


“Parei de alimentar esses perfis literários e passei a usar meu perfil pessoal para conversar sobre literatura e compartilhar leituras interessantes. E também porque eu passei a me apresentar como escritora, então foi a melhor forma de me conectar com meus possíveis leitores”, explica. A estudante escreve contos mensalmente para uma revista baiana.

Rafaela também tem experiência em sala de aula e comenta o uso de paradidáticos. “A literatura que a gente tem na escola está muito ligada à historiografia. A história da nossa literatura, o que foi feito pelos brasileiros e como ocorreu essa mudança de escrita e a forma dos autores enxergarem o mundo. Uma ilustração do mundo.”

“Talvez os alunos prefiram ler Harry Potter. Mas é importante compreender que, assim como outras matérias, as obras literárias não estão sendo passadas para agradar os alunos ou como uma arte que todo mundo tem que gostar. Literatura além de ser arte, também é história. Também é historiografia”, explica.

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REPRODUÇÃO
O universo mágico de Harry Potter, criado por J. K. Rowling, faz sucesso até hoje - REPRODUÇÃO

“É muito importante a gente não cair nessa questão de ‘qual paradidático a escola tem que passar para atrair os estudantes?’. É importante trazer paradidáticos e discussões mais contemporâneas. Mas também é preciso que os estudantes também entendam o caminho que a nossa literatura passou para chegar no que é hoje e no que ela será”, acrescenta.

Ela também defende acrescentar atividades e leituras de obras populares entre os alunos ao cronograma de aulas. “Eu também passo um trabalho sobre qualquer tipo de livro, de poesia, escrita que eles quiserem. E isso também inclui fanfic e literatura que não é do Brasil. Não adianta eu falar o que é bom para eles. Eles também precisam encontrar a literatura que eles gostam.”

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A leitura de paradidáticos faz parte do cronograma da disciplina literatura - PEXELS

Fanfics, o termo ao qual Rafaela se refere, é a abreviação de fanfictions. O gênero consiste em uma narrativa ficcional escrita e publicada por fãs. Geralmente, os fãs se apropriam de personagens ou universos de outros livros e escrevem as próprias histórias.

Os leitores se tornam, então, escritores. Muitos deles publicam seus textos em blogs e plataformas, como o Wattpad. Vale ressaltar, inclusive, que o gênero não fica restrito à bolha, já tendo viralizado com histórias de romance protagonizadas por personagens do mundo real, como Selena Gomez e Faustão.

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História que originou a trilogia 50 Tons de Cinza é uma fanfic - DIVULGAÇÃO

A trilogia “50 Tons de Cinza”, escrita por E. L. James, é um exemplo de uma fanfic que ficou conhecida mundialmente - e até ganhou filmes. Em 2015, os livros ultrapassaram a marca de 100 milhões de cópias vendidas. A história original tinha como protagonistas Bella e Edward de Crepúsculo, saga escrita por Stephenie Meyer.

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