Pobreza Menstrual

Veto de Bolsonaro à distribuição de absorventes: pobreza menstrual pode causar doenças, infertilidade e morte de mulheres; entenda tudo


Nesta semana, presidente Bolsonaro negou distribuição de absorventes a mulheres e adolescentes pobres em período menstrual

Gabriel dos Santos Araujo Dias
Gabriel dos Santos Araujo Dias
Publicado em 08/10/2021 às 11:03
Prefeitura de Olinda distribui absorventes para adolescentes da rede pública
FOTO: Prefeitura de Olinda distribui absorventes para adolescentes da rede pública
Leitura:

Os relatos de mulheres sofrendo as consequências da falta de recursos para uma boa higiene menstrual são preocupantes. De acordo com médicos especialistas no assunto, além dos problemas emocionais causados pela ausência de absorventes, medicamentos e estrutura adequada durante o processo de higiene, a pobreza menstrual pode afetar profundamente a saúde física das mulheres e levar, em casos extremos, à morte. Por causa disso, esta semana, causou espanto o veto do presidente Jair Bolsonaro a um projeto que pretendia distribuir gratuitamente absorventes a adolescentes e mulheres pobres em todo o país.

Sem dinheiro para comprar absorventes, mulheres pobres têm recorrido ao uso improvisado de pedaços de pano usados, roupas velhas, jornal e até miolo de pão. "Outra face do problema, para além dos meios improvisados, diz respeito à situação em que meninas e mulheres não conseguem realizar de três a seis trocas diárias de absorventes, conforme a indicação de ginecologistas, permanecendo com o mesmo absorvente por muitas horas, seja porque o custo dos absorventes exerce um peso importante no orçamento das famílias mais pobres (que em vários casos enfrentam algum grau de insegurança alimentar), seja porque o item é considerado supérfluo mesmo quando existe algum espaço orçamentário que acomodaria a compra de uma quantidade maior do produto, ou ainda nos casos em que a menina ou mulher está institucionalizada e tem o seu acesso aos produtos menstruais controlado, para citar apenas alguns fatores", detalha o relatório "Pobreza Menstrual no Brasil - Desigualdades e Violações de Direitos" do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Problemas de saúde e morte

De acordo com o relatório, esses problemas podem causar até a morte de mulheres. "Como consequência desse insuficiente ou inadequado manejo da menstruação podem ocorrer diversos problemas que variam desde questões fisiológicas, como alergia e irritação da pele e mucosas, infecções urogenitais como a cistite e a candidíase, e até uma condição que pode levar à morte, conhecida como Síndrome do Choque Tóxico", elenca o relatório.

Saúde mental

"Do ponto de vista de saúde emocional, a pobreza menstrual pode causar desconfortos, insegurança e estresse, contribuindo assim para aumentar a discriminação que meninas e mulheres sofrem. Põe em xeque o bem-estar, desenvolvimento e oportunidades para as meninas, já que elas temem vazamentos, dormem mal, perdem atividades de lazer, deixam de realizar atividades físicas; sofrem ainda com a diminuição da concentração e da produtividade. Existe, ainda, uma extensa literatura sobre o aumento do absenteísmo ou da taxa de exclusão escolar como efeito da pobreza menstrual, embora existam resultados conflitantes", acrescenta o estudo.

Infertilidade

Ao Fantástico, da TV Globo, a ginecologista e obstetra Larissa Cassiano disse que há ainda a possibilidade de desenvolvimento de infertilidade causada pelos desdobramentos da pobreza menstrual. “Já recebi mulheres que colocaram algodão, miolo de pão, coisas que acabam soltando fibras ou pedaços. Aquilo pode causar uma infecção e esse impacto pode não ser momentâneo, ele pode ser duradouro e pode afetar a fertilidade dessa pessoa”, contou.

Questões sociais

Em entrevista à Rádio Jornal, o médico endocrinologista Francisco Bandeira defendeu, em entrevista à Rádio Jornal, que há provas científicas da importância do uso adequado de absorventes e classificou como "lamentável" a decisão de Bolsonaro. "Existem mulheres que usam retalhos de roupa, guardanapo, papel, e isso pode causar infecções intravaginais e até infecções uterinas que podem ter proporções graves. O governo tem ido à margem da ciência, mas é lamentável que ocorra esse veto. O problema que nós temos, hoje, é um problema de desigualdade social. É um projeto bem vindo. E veta-alo é desconhecer totalmente a realidade social do país", afirmou.


Mais Lidas