Fuga histórica

Caso Lázaro Barbosa: relembre histórica caçada por homem que ficou conhecido como o Serial Killer de Brasília e fugiu por 20 dias

Durante mais de duas semanas em junho de 2021, Lázaro Barbosa de Sousa conseguiu escapar de 270 policiais, se escondendo em matas de Goiás

Gabriel dos Santos Araujo Dias
Gabriel dos Santos Araujo Dias
Publicado em 01/07/2021 às 12:02
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Durante 20 longos dias, em junho de 2021, o Brasil acompanhou a fuga de um criminoso que desafiou a inteligência e a capacidade operacional de 270 policiais de Goiás e do Distrito Federal. Escondido nas matas dos arredores de Brasília, Lázaro Barbosa de Sousa, de 32 anos, colocou pânico nos moradores da região e deixou um rastro sanguinário. Violento, armado e sob a suspeita de ter cometido vários assassinatos, ele invadiu casas, fez reféns, trocou tiros com a polícia diversas vezes e resistiu até o último momento. No final, um desfecho trágico: o corpo do bandido foi abatido com quase 40 tiros, pondo fim à caçada histórica, que mais parecia um enredo de filme de ação, com nuances de reality show e jogo de videogame. Nesta reportagem, relembre o caso do homem que ficou conhecido como o “Serial Killer de Brasília”.

Caso Lázaro Barbosa

Tudo começou na madrugada do dia 9 de junho, uma quarta-feira, em Ceilândia, no Distrito Federal. O empresário Cláudio Vidal de Oliveira, de 48 anos, e os filhos dele: Gustavo Marques Vidal, de 21 anos, e Carlos Eduardo Marques Vidal, de 15, foram encontrados mortos dentro da chácara onde moravam. Os corpos tinham ferimentos de tiros e facadas. Como se a barbaridade contra os três já não fosse suficiente, os familiares e amigos perplexos ainda tiveram de conviver com a angústia do desaparecimento da mãe e esposa das vítimas. Cleonice Marques de Andrade, 43 anos, foi sequestrada, logo após a morte dos filhos e do marido. O corpo nu da mulher só foi encontrado no sábado, 12 de junho, dentro de um córrego, com sinais de tortura. Os policiais acreditam que ela foi estuprada, teve a orelha cortada ainda viva e tenha morrido com um tiro na cabeça. Até a última atualização desta reportagem, os investigadores ainda não haviam esclarecido o que motivou o ataque contra os Vidal.

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A partir deste momento, começa a fuga de Lázaro Barbosa de Sousa, de 32 anos. Desde o primeiro momento, ele foi apontado pela polícia como principal suspeito de cometer os assassinatos contra a família Vidal. Aos 32 anos, Lázaro já era um velho conhecido da polícia. Ele já havia sido preso na Bahia, no DF e em Goiás por vários crimes, entre eles, homicídios. Em todas as vezes que foi preso, o criminoso conseguiu fugir. De uma penitenciária de Goiás, o bandido escapou pelo teto da cela em que estava preso.

Logo nos primeiros dias de buscas, os policiais já descreviam Lázaro como um “psicopata” e “imprevisível”. Mais tarde, um laudo preparado em 2013, quando ele foi preso, foi divulgado e confirmava o perfil psicopatológico do criminoso.

Entre as principais características do bandido que dificultavam a captura, estavam o fato de ele ter crescido e trabalhado em matas da região. “Ele conhece isso aqui como a própria palma da mão, é um mateiro, capaz de passar dias e dias dentro da mata”, disse o secretário de Segurança Pública de Goiás, o delegado aposentado Rodney Miranda, que foi escolhido para chefiar a operação contra Lázaro. Outro agente que participava da operação acrescentou, em entrevistas à imprensa, que a polícia acreditava que Lázaro era capaz de escalar árvores e dormir entre os galhos, o que dificultava ainda mais as buscas.

Por esses motivos, Lázaro buscava se esconder sempre no meio da mata. Ao sair do DF, ele fugiu para a cidade de Cocalzinho de Goiás, a 130 km de Goiânia. Transtornado, ele invadiu fazendas e trocou tiros com caseiros que estavam sabendo das notícias. Nas invasões, ele conseguiu balear três homens, abandonando o local com a chegada da polícia. Em uma das propriedades invadidas, Lázaro obrigou uma mulher e um caseiro a fumarem maconha com ele. Ele também roubou um carro, mas abandonou o veículo ao avistar uma blitz na rodovia BR-070 e sumiu na mata. Por diversas vezes, quando a polícia chegou perto do criminoso, ele revidou e trocou tiros. Pelo menos dois policiais ficaram feridos nos tiroteios contra Lázaro, mas conseguiram se recuperar.

Na semana seguinte ao crime contra os Vidal, enquanto fugia, Lázaro invadiu uma chácara em Edilândia, distrito de Cocalzinho de Goiás, e fez uma família refém. Sob a mira de uma arma, pai, mãe e uma filha adolescente tiveram de preparar comida para o criminoso. Depois, Lázaro obrigou os três a saírem da casa e irem para a mata com ele. Antes disso, no entanto, a jovem de 16 anos conseguiu enviar uma mensagem para um policial informando que o criminoso estava na chácara da família. Os policiais seguiram para o local e, ao chegarem, trocaram tiros com Lázaro, que fugiu novamente. Os policiais acreditam que é possível que Lázaro quisesse matar a família, da mesma forma como teria feito com os Vidal, em Ceilândia, dias antes. Aos reféns, Lázaro disse que queria fugir para outro estado. Um vídeo divulgado pela polícia mostra o momento em que a família é resgatada:

Buscas

As buscas eram feitas em um perímetro de 10 quilômetros. Depois, as investigações ocuparam uma área de 50 quilômetros quadrados. Acredita-se que Lázaro Barbosa caminhava pelas margens de córregos para dificultar o trabalho de cães farejadores. Pelo menos cinco cachorros ajudaram nas buscas.

Os 270 policiais se revezavam de dia e de noite. Elas homens das polícias Militar, Civil, Penal, Federal e Rodoviária Federal. Dentro da mata, contavam ainda com três helicópteros e drones com alta tecnologia. Fora da área rural, equipes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) vasculhavam veículos que trafegavam pela BR-070 na intenção de evitar que Lázaro escapasse para outro estado.

Homem infiltrado foi preso, após entrar em local restrito
Viatura fez buscas por Lázaro Barbosa.
Reprodução/TV Jornal

Apesar de toda a operação, especialistas acreditam que a polícia era pouco equipada para o trabalho dentro da mata. Reportagem do jornal Correio Braziliense, por exemplo, apurou que havia poucos dispositivos para a caçada à noite, sem a luz do dia.

O secretário Rodney Miranda chegou a anunciar que homens da Força Nacional reforçariam as buscas por Lázaro, mas o reforço nunca chegou. Ao invés disso, o Exército Brasileiro enviou 40 rádios comunicadores para ajudar na caçada.

Durante as buscas, o pai, a mãe e a esposa de Lázaro pediram para que o criminoso se entregasse. A mulher de Lázaro, com quem ele tinha uma filha pequena, também se colocou à disposição para ajudar nas negociações e disse que temia pela morte do marido.

>>> Durante fuga, Lázaro ligou para a mãe; veja como foi conversa.

Dona Eva é a mãe de Lázaro e foi para a Bahia, após crimes
Dona Eva é a mãe de Lázaro e foi para a Bahia, após crimes
Reprodução/TV Bahia e Divulgação

“Rede de psicopatas”

Na quinta-feira, 24 de junho, cerca de 15 dias após o início das buscas, a polícia conseguiu algo importante. Prendeu um fazendeiro de 74 anos suspeito de ajudar na fuga de Lázaro. O idoso foi identificado como Elmi Caetano Evangelista. Na prisão, o caseiro do fazendeiro, Alain Reis de Santana, de 33 anos, que também chegou a ser preso, confessou que Elmi dava comida e abrigo a Lázaro. A Justiça soltou Alain e manteve a prisão do fazendeiro, que nega as acusações. Até a última atualização desta reportagem, não se sabia porque Lázaro seria ajudado por Elmi. Especula-se, inclusive, que o fazendeiro possa ter relação com o crime contra a família Vidal.

>>> Para secretário, fazendeiro era chefe da quadrilha de Lázaro.

Ao anunciar a prisão do fazendeiro, o secretário Rodney Miranda disse que acreditava haver uma “rede de psicopatas” ajudando Lázaro na fuga. Depois da morte do criminoso, a polícia continuou investigando. Na última atualização desta reportagem, uma ex-mulher e uma ex-sogra de Lázaro também eram investigadas de envolvimento com a fuga.

Captura e morte de Lázaro

Após inúmeras denúncias, em alguns casos, alertas falsos, no sábado (26) e no domingo (27), os policiais começaram a receber informações sobre a presença de Lázaro no bairro de Itamaracá, em Águas Lindas de Goiás, já bem perto da divisa entre Goiás e o Distrito Federal.

Os policiais foram até o local, mas só com o amanhecer da segunda-feira (28), é que fecharam o cerco. Lázaro estava escondido na casa de uma ex-sogra, um casebre bem humilde na zona rural da cidade. Pouco antes de morrer, o homem deixou R$ 350 para ser entregue a um filho.

De acordo com o relato oficial da Secretaria de Segurança Pública de Goiás, quando os policiais chegaram no local, Lázaro fugiu para a mata. Desta vez, no entanto, os policiais foram mais rápidos e conseguiram alcançar o criminoso.

Segundo os agentes, Lázaro não se entregou e teria dito que morreria, mas que também mataria. Rodney Miranda afirmou que Lázaro descarregou uma pistola contra os policiais. No entanto, nenhum policial ficou ferido.

Por outro lado, os policiais dispararam mais de 100 vezes contra Lázaro, que teve o corpo atingido por quase 40 balas. Ferido, o homem foi socorrido pelos policiais. Primeiro, foi levado até o centro de operação de buscas em Cocalzinho de Goiás. Depois, transferido até um hospital em Águas Lindas. Segundo Rodney Miranda, Lázaro chegou ainda com vida no hospital, mas morreu na unidade de saúde.

Imagens mostram o momento em que Lázaro é socorrido. O corpo do homem é jogado dentro de uma viatura.

A captura de Lázaro foi anunciada pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), às 9h29. Por volta das 10h, a polícia confirmou que o criminoso estava morto. Era o fim de Lázaro Barbosa de Sousa.

>>> Lázaro tinha R$ 4.400 no bolso, no momento em que foi morto.

Comemoração

Quando Lázaro foi capturado, moradores da região soltaram fogos e repetiam em entrevistas aos repórteres: “graças a Deus”. Levantamento feito pelo portal UOL mostrou que cerca de 70% dos habitantes das propriedades rurais do entorno por onde Lázaro passou deixaram suas casas. Uma mulher grávida, inclusive, ficou famosa após começar a dormir com a família dentro de um carro, na frente do centro de operações policiais, por sentir medo de ficar em casa e ser surpreendida por Lázaro.

Um policial que participou da operação que acabou na morte de Lázaro enviou um áudio a outros agentes comemorando. "Atenção, senhores, as equipes que estiverem se deslocando em busca pelo Lázaro, retrair para a base. Tivemos um confronto com um individuo que, possivelmente, é o Lázaro. Estamos levando ele para a base para socorro. Parabéns a todas as polícias", disse o policial. O áudio foi reproduzido pela TV Globo.

Corpo de Lázaro

O corpo de Lázaro Barbosa foi levado até o Instituto de Medicina Legal (IML) de Goiânia. Somente dois dias depois, familiares retiraram o corpo, que foi levado por uma funerária até Brasília, para que o velório fosse preparado.

Com medo da reação da população, os familiares não quiseram divulgar horário e local da cerimônia de despedida. Uma tia de Lázaro havia confirmado que o criminoso seria sepultado em Cocalzinho de Goiás, ao lado do corpo de um irmão, morto seis anos antes.

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